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Acervo mostra as marcas da censura

Material vetado pode ser lido e comparado com páginas onde saíram 'Os Lusíadas'

25 de maio de 2012 | 16h 52
José Maria Mayrink

Versos de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, apareceram 655 vezes nas páginas do Estado, de 2 de agosto de 1973 a 3 de janeiro de 1975, para tapar o vazio aberto pelo lápis vermelho dos censores. Quem consultar o acervo digitalizado do jornal poderá conferir o material cortado pela censura do regime militar, ao lado do que foi publicado no espaço que não podia ser deixado em branco.

Segundo a pesquisadora Maria Aparecida de Aquino, professora da Universidade de São Paulo, foram censurados 1.136 textos num período de 21 meses e cinco dias.

A censura começou no dia 13 de dezembro de 1968, antes mesmo da edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que seria anunciado à noite pelo ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, no governo do general Artur da Costa e Silva. Policiais apreenderam o Estado, na Rua Major Quedinho, onde ficava então sua sede, no centro de São Paulo, por causa do editorial Instituições em frangalhos, escrito por Julio de Mesquita Filho, que denunciava o autoritarismo e a arbitrariedade do presidente da República. "Câmara nega; prontidão", dizia a manchete da primeira página da edição apreendida. A Câmara havia negado licença para o governo processar o deputado de oposição Márcio Moreira Alves, por causa de um discurso, pronunciado três meses antes, considerado ofensivo às Forças Armadas, informava o jornal apreendido.

Julio de Mesquita Filho avisou ao governador paulista Roberto de Abreu Sodré que, em nenhuma hipótese, o jornal faria autocensura, advertindo que, se o governo quisesse censurar, teria de pôr censores na Redação. Funcionários da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria Estadual de Segurança foram então escalados para a tarefa. Chegaram ao prédio da Rua Major Quedinho às 22 horas, uma hora antes de o ministro Gama e Silva ler o AI-5 em cadeia nacional de rádio e televisão. Instalaram-se ao lado do redator-chefe, Oliveiros S. Ferreira, e só se retiraram em janeiro de 1969, quando os comunicados sobre o que não poderia ser publicado passaram a ser feitos por telefone ou por bilhetes em papel sem timbre.

Proibido de deixar em branco o espaço do material cortado, o Estado passou a preencher os vazios com despachos judiciais, cartas e poemas.

"Já é hora de dar mais atenção às flores", dizia a manchete de 4 de abril de 1973, no lugar da que havia sido censurada ("No Brasil, não há liberdade de imprensa", com um relato apresentado pelo jornalista Julio de Mesquita na Jamaica, numa reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa -SIP, sobre a falta de liberdade de informação).

Prisões. Os censores se interessavam mais pela política, mas outros temas entraram na lista do que não podia ser divulgado. Conflitos de terra, questões indígenas, luta armada, Igreja e crises no governo eram assuntos que não escapavam ao veto dos agentes policiais.

"Façam as reportagens, os censores que cortem", era a orientação de Julio de Mesquita Neto, que substituiu o pai em 1969, após a sua morte. Seu irmão, Ruy Mesquita, adotava a mesma orientação no Jornal da Tarde, do qual era diretor. Os jornais investiam em viagens e em grandes coberturas, apesar de saberem que boa parte do que era apurado seria vetada. Os dois irmãos mantiveram essa atitude até o fim da censura, em janeiro de 1975, e sempre apoiaram seus jornalistas, quando eles foram perseguidos. Alguns foram presos e torturados, sob suspeita de atividades subversivas, mas ninguém perdeu o emprego por causa disso.

A censura ficou mais dura a partir de agosto de 1972, quando os censores voltaram a se instalar na Rua Major Quedinho. Os jornalistas receberam os censores com antipatia. Constrangidos, os agentes do lápis vermelho foram dar plantão em outro andar, nas oficinas, onde seu único contato era com o secretário gráfico. Conferiam as páginas prontas para a impressão e decidiam o que não poderia ser divulgado.

Memória. Por determinação de Julio de Mesquita Neto, o material censurado foi arquivado, para que fosse reaproveitado no futuro. A digitalização do arquivo abre agora a possibilidade de consulta.

O episódio da renúncia do ministro da Agricultura, Cirne Lima, em maio de 1973, é um exemplo da criatividade do pessoal da Redação para caracterizar a censura. "Agora é samba", um anúncio da Rádio Eldorado, apareceu no alto da primeira página em substituição à foto do ex-ministro deixando de carro o prédio de seu ministério. em Brasília.

Em vez da manchete "Cirne Lima diverge e renuncia", que dava a notícia completa, saiu "Médici nomeia um novo ministro", sem a informação de quem saía e por quê. Abaixo, uma carta dos leitores, inventada pelos redatores do jornal, falando de "Salomão e rosas".

A partir de junho de 1975, quando o Estado publicou o poema Y - Juca Pirama, de Gonçalves Dias, no espaço de um editorial sobre a censura no cinema, poesias de Castro Alves, Olavo Bilac, Gil Vicente, Cecília Meireles e Manuel Bandeira cobriram o vazio de matérias censuradas. Os versos de Os Lusíadas vieram em seguida, por sugestão do redator Antônio Carvalho Mendes, falecido em 2011, que assinava a coluna Falecimentos. Por ordem de Julio de Mesquita Neto, trechos da epopeia de Camões foram publicados repetidamente, para que o leitor identificasse a censura. No Jornal da Tarde, Ruy Mesquita optou pela publicação de receitas de bolos e doces.

Receitas. Nem todos entendiam tratar-se de uma forma de protesto. Houve gente que elogiou a importância dada pelo Estado à cultura e donas de casa e até quem reclamasse contra receitas que não funcionavam - nem podiam funcionar, porque saíam incompletas, na medida do espaço censurado. A mesma coisa acontecia com os poemas, que eram interrompidos de repente. Como em 1974, quando a manchete "Os Lusíadas - Canto Primeiro"e 18 linhas de Camões substituíram a notícia de que o governador Laudo Natel havia proibido a divulgação de informações sobre casos de meningite.

Os censores retiraram-se no dia 3 de janeiro de 1975, véspera da comemoração do centenário do jornal.

'Estado' sofreu ataques de regimes autoritários

Da revolta paulista contra o presidente Artur Bernardes em 1924 à edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968, o jornal 'O Estado de S. Paulo' registra quatro investidas da censura em sua trajetória de resistência às ditaduras. Na Revolução Paulista de 1924, o jornal foi censurado primeiro pelas forças rebeldes comandadas pelo general Isidoro Dias Lopes na ocupação da capital e, posteriormente, pelo governo federal, quando suas tropas expulsaram os rebeldes.

O jornal voltou a sofrer restrições em 1932, após a derrota da Revolução Constitucionalista. O golpe de 10 de novembro de 1937, do Estado Novo, impôs mais um longo período de censura. Na resistência à censura, o 'Estado' foi ocupado pela polícia do interventor Ademar de Barros, por ordem de Getúlio, sob o pretexto de que o jornal armazenava armas para derrubar o regime. J.M.M.

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