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1911: Queiroz, um rapaz sympathico e maneiroso e sua firma fantástica

Notícia publicada há 108 anos detalha caso policial no Brás e seus personagens

25 de maio de 2019 | 0h 51
Edmundo Leite - Acervo Estadão

Em 25 de julho de 1911, a seção 'Notícias Diversas' do jornal trazia, entre outros acontecimentos, a história de um "rapaz symphatico e maneiroso" envolvido em negócios  "quasi sempre duvidosos", "comprando, vendendo e revendendo generos por conta de uma firma fantástica."

Sob o título, "Fogo numa confeitaria", o caso de um incêndio proposital no bairro do Brás é narrado em pormenores, como a prática de um dos acusados de levantar recursos comprando itens a prazo e vendendo a dinheiro no mesmo dia a um preço muito menor e a acusação de um sócio dizendo que o rapaz "exercia sobre elle um estranho domínio e que o impellia para o crime."

"O dr. Piza prendera Francisco Caetano, proprietário do estabelecimento, Eduardo Rebello de Queiroz, socio da firma e Manuel Francisco Dias, como culpados no caso."

Veja abaixo trechos e leia a transcrição do texto de 1911 com a grafia original da época [clique para ver a íntegra da página]

Trecho da notícia de 25/7/1911 sobre incêndio em confeitaria no Brás

“FOGO NUMA CONFEITARIA

No Braz — Mais um Incêndio proposital — Uma firma fantastica que faz transacções nesta capital e no estrangeiro, lesando o commercio — Os prejuizos — Plano de Incêndio — O Inquérito — Prisão dos accusados

O dr. Franklin do Toledo Piza, quinto delegado, no intuito de esclarecer os motivos dos incendios que ultimamente se tem dado naquelle bairro, de ha muito trabalha, tendo já conseguido averiguar que dois dos grandes incêndios foram propositaes, fazendo recolher á cadêa os culpados.

O primeiro, conforme noticiamos detalhadamente, foi na pharmacia “Santos Dumont”, de propriedade de Elisio Ferranti e situada á rua Monsenhor Andrade, esquina da rua do Gazometro.

O outro incêndio foi o da “Confeitaria Amazonas”, à rua Bresser, 138. Com o inquérito instaurado, a autoridade conseguiu não só averiguar que o fogo foi proposital, como também que a casa girava sob um firma fantastica e que fazia transacções não só no commercio desta praça como no exterior, lesando-o.

No processo depuzeram já dezoito testemunhas, não estando elle ainda concluido.

O dr. Piza prendera Francisco Caetano, proprietário do estabelecimento, Eduardo Rebello de Queiroz, socio da firma e Manuel Francisco Dias, como culpados no caso.

A autoridade, no entanto, sabendo que contra elles ia ser impetrada uma ordem de “habeas corpus”, requereu a prisão preventiva dos tres, fazendo um longo e minucioso histórico do facto, provando com o depoimento das testemunhas e dos próprios accusados, que o fogo fôra proposital, allegando tambem outras irregularidades, que citamos abaixo.

Á vista das provas esmagadoras que se accumulavam contra elles, o dr. Gastão de Maesquita, juiz da segunda vara criminal concedeu a prisão preventiva.

O dr. Piza baseou-se no laudo do peritos drs. Mauricio Rosa o Affonso Hartung o nos depoimentos que são claros o precisos, provando cabalmente a responsabilidade dos tres presos.

Os factos deram-se mais ou meno da seguinte fórma:

Ha seis mezes, approximadamente, Francisco Caetano comprou por 6:500$000 réis a «Confeitaria Amazonas», que pertencia á firma Pedro Lopes & Comp.

Nos primeiras tempos os negocios correram magnificamente e a casa entrou em franca prosperidade, tendo na rua mais de dez vendedores ambulantes de doces.

Esses doceiros, que carregavam grandes caixas de vidro do formato de uma mesa, vendiam muito; regulando as ferias entre vinte e trinta mil reis por dia, cada um.

Aos domingos e dias de festas as ferias attingiam elevadas somma.

A confeitaria estendeu, então, os seus negocios, comprando grandes partidas de farinha

e de outros generos necessarios ao fabrico de doces.

Desses negocios era sempre o intermediario Eduardo de Queiroz, espertalhão já muito conhecído da policia.

Caetano deixou-se levar pelo que dizia o intermediário e, dentro de dois mezes, era socio da casa.

Queiroz principiou, então, a desensolver sua perigosa intelligencia, comprando, vendendo e revendendo generos por conta de uma firma fantástica.

Os negocios, quasi sempre duvidosos, eram feitos de accordo entre Queiroz, Caetano e o guarda-livros Manuel Francisco Dias.

As casas que mais soffreram foram Herman Stoltz & Comp, Silva Monarcha & Comp., Casa Tolle, Pedro Henriques, Casa Treviscal, de Lisboa, e Leite & Pereira, de Pernambuco.

O dr. Piza apurou que estas firmas foram lesadas em mais de 25:000$000 de réis.

Queiroz, que é um rapaz symphatico e maneiroso, comprava a praxo e no mesmo dia vendia a dinheiro, por um preço muito menor, já se vê.

Caetano, segundo ficou provado, obedecia cegamente a seu sócio, que o levava a casas de jogo onde, de sociedode, perdiam quasi sempre todo o dinheiro arranjado com as ferias diarias ou com alguma transação levada a effeito por Queiroz.

No entanto, oas letras principiavam a vencer-se e elles não possuiam dinheiro para resgatal-as, servindo-se, então, de evasivas ou de reformas.

Na confeitaria só existiam as prateleiras, isso mesmo porque pertenciam ao aono da casa, Augusto José Dias.

Queiroz, como sempre, poz em pratica a sua astúcia o planejou um incêndio.

No dia 10 do abril, de accordo com aquelle Caetano, segurou a casa em trinta contos, sendo quinze na “Indemnisadora” e quinze na “Brasileira”.

No dia 24 do mesmo mês, Queiroz foi à Junta Commercial, onde registrou os livros, tendo, porém, o cuidado de fazel-os em nome individual de Francisco Caetano.

Preenchidas essas formalidades, que Queiroz julgou indispensaveis, os tres homens reuniam-se á noite no escriptorio para combinar o melhor meio de ateiar fogo à casa.

Nos fundos, morava uma tia de Caetano, Marcelinna Mortari, que surprehendeu certa noite a conversa dos incediarios, porém, como Caetano manifestasse receio de que o plano falhasse, Queiroz exclamava:

- Se vocês têm medo, eu sósinho dou conta do recado...

No dia seguinte, a essa conversa, Caetano impoz á sua tia que se mudasse.

Esta, amendrotada pela conversa, não esperou segundo aviso, indo para a casa do sr. Mario Couto, auxiliar da Casa Singer, morador á rua Rodovalho, 15, a quem narrou o facto.

Dentro em pouco era voz corrente no Braz que Caetano, ia ateiar fogo á casa.

Na tarde de 19, uma carrocinha de generos parou á porta da confeitaria, descarregando duas caixas com latas de kerosene e tres latas com azeite.

Contra o costume, a casa fechou-se ás 6 horas da tarde tendo Queiroz dispensado a essa hora o unico empregado Belmiro Augusto.

Depois, nada mais se soube, se não quando foi dado o alarme de incendio e o predio devorado pelas chammas.

Nos depoimentos, os tres ascusados caem constantemente em contradições, acusando-se reciprocamente.

O guarda-livros, por exemplo disse que áquella hora dormia profudnamente no Hotel Leão, á avenida Rangel Pestana, porém isso foi desmentido pelo dono do hotel, que affirmou ali não ter elle pernoitado.

Caetano accusa Queiroz, dizendo que este exercia sobre elle um estranho domínio e que o impellia para o crime.

Queiroz, no entanto, não perdeu a sua calma habitual.

Fala sempre alegre, acompanhando as suas phrases um riso contrafeito.

No entanto, atira a responsabilidade do incendio a Caetano e ao guarda-livros e jura por todos os santos da corte celeste que não cooparticipou com o crime, pois ele era um simples intermediario dos negocios da casa.

Em um quarto dos fundos do predio incendiado, foram encontrados os livros, intactos.

Queiroz, Caetano e Dias estão recolhidos ao xadrez do Braz.”

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