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A festa em constante transformação

No espaço de um século, o carnaval sofreu grandes mudanças devidos a dois 'Zé Pereira'

10 de fevereiro de 2013 | 22h 04
Liz Batista

O primeiro som extraído de um tambor no carnaval foi obra do sapateiro Sr. José Nogueira de Azevedo Paredes, que entrou para história como Zé Pereira. Contam que, em idos de 1854, Zé sugeriu aos amigos que saíssem às ruas tocando bombos e tambores para pular a festa de uma maneira até então inusitada. A ideia pegou e evoluiu. De lá para cá, o Carnaval passou por inúmeras transformações, muitas musicais, que acompanhadas por outras tantas de ordem artística e comportamental, fizeram do carnaval a imensa, sonora, colorida e tecnológica festa que conhecemos hoje.


O Estado de S.Paulo - 24/2/2001


No século 19, a celebração já era acompanhada por música, mas sem um tempero tropical. Nos salões  tocavam de valsa à óperas. Até a compositora Chiquinha Gonzaga apimentar a festa com suas marchinhas. Em 1899, “Ô abre alas”, música indispensável em qualquer baile ou bloco de carnaval, fez os salões cariocas acordarem para a nova musicalidade nacional.

O Estado de S.Paulo - 19/02/1940


Nos primeiros anos do século 20, o gênero popularizou-se. Enquanto Haroldo Lobo, Braguinha, Lamartine Babo e Joubert de Carvalho criavam pérolas como “Pra você gostar de mim (Taí)”, a doceira e mãe de santo, Tia Ciata juntava enredo e fantasias - bem mais elaboradas que as máscaras dos salões - à batucada quente dos morros. E abria a porta da sua casa para músicos e compositores como Donga e Mauro de Almeida, autores de “Pelo Telefone”, primeiro samba  gravado em disco. Musicalidade própria e figurino caprichado fizeram com que o carnaval deixasse de ser mais uma festa importada, para se transformar na festa do Brasil.


O Estado de S.Paulo, 01/04/1989

Com a industrialização, inovações técnicas foram incorporadas à folia. Dos automóveis enfeitados nos corsos e carros alegóricos de tração animal que animavam os festejos nos bairros mais populares, nos anos  20 e 30, até o tradicional carro abre-alas da Portela com sua águia gigantesca que move bico e asas,  mais de 7 décadas se passaram. E da mesma forma, a cada ano, o público  aguarda ansioso para ver  a próxima invenção de carnavalescos que fundem tecnologia à arte para apresentar-nos o maior show da terra.


Carro abre alas da Portela, Carnaval de 2002  - Wilson Júnior/ Estadão

Também, graças ao progresso tecnológico, o espetáculo  pode ser visto até pelos pouco afeitos às aglomerações. Desde a década de 70, os desfiles chegam ao conforto de muitos lares transmitidos pela TV.

Conforme o carnaval revelava seu alto potencial lucrativo, outra transformação. A festa saiu das ruas para espaços arquitetônico próprios, pensados para que milhares de pessoas não precisassem se acotovelar para assistir aos desfiles. Em 1984, o Rio ganhou seu sambódromo na Marquês de Sapucaí. Em 1993, foi a vez de São Paulo com o sambódromo do Anhembi.



Sambódromo do Rio, 1984  Carlos Chicarino/ Estadão

Mas, nem todos se despediram do espaço público. No nordeste do país, em especial na Bahia, no Recife e em Pernambuco, a  festa ainda invade a rua, seu lugar por excelência e direito. Mesmo sem ser contido em um espaço fechado, o carnaval nessas regiões também foi organizado. Cordões e abadás para aqueles que pulam nas ruas atrás da eletrizante criação de Dodô e Osmar, o trio elétrico. Hoje, parte indissociável do carnaval baiano, ele foi foi inventado em 1950.  Nasceu como 'dupla-elétrica', quando os dois adaptaram um Ford 1929 , ligando à bateria do veículo um violão e um protótipo de guitarra.

O Estado de S.Paulo, 04/03/2000

De todos os cantos do país novidades surgiam e eram rapidamente incorporadas à festa. Toda inovação ajudava a evolução do carnaval. E sobre evolução os mestres de bateria entendem melhor que ninguém. Quase 100 anos separam a despretensiosa invenção do Zé Pereira sapateiro da acidental inovação de outro Zé Pereira. Enquanto o primeiro deu ordem para o batuque começar o segundo acidentalmente mandou ele parar, e acabou inventando uma das execuções musicais mais apoteóticas do mundo, a paradinha. Em 1959, José Pereira da Silva, o Mestre André errou uma regência e a bateria da escola de samba Mocidade Alegre de Padre Miguel parou por alguns instantes para, logo em seguida, ao seu comando retomar a batucada no tempo certo do repique.

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