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Acervo digital mostra vida e obra de Vladimir Herzog

Itens de todas fases da vida do jornalista, entre eles suas matérias no Estadão, são reunidos em site

26 de junho de 2020 | 9h 41
Edmundo Leite - Acervo Estadão

  Imagens de Vladimir Herzog em seu acervo

Sempre lembrado por sua morte, Vladimir Herzog a partir de agora poderá ser rememorado também por sua vida. Tornado personagem central da história do Brasil após perecer brutalmente num covil da ditadura militar em 1975, o jornalista tem sua trajetória, atuação profissional e a produção cultural e intelectual de seus breves 38 anos reunidas digitalmente no site Acervo Vladimir Herzog.

Com documentos, fotos, textos, periódicos e vídeos que mostram desde a infância de refugiado iugoslavo na Segunda Guerra na Europa à chegada ao Brasil e a típica vida de um menino da Mooca dos anos 40 e de adolescente paulistano dos 50, até as passagens pelos principais veículos de comunicação do Brasil e do exterior, o acervo com itens de toda a vida do jornalista tem lançamento com live nas redes sociais às 19 horas desta sexta-feira, 26 de junho, véspera do que poderia ter sido seu aniversário de 83 anos.

Além de se impressionar com os números superlativos envolvidos na empreitada para reunir e colocar esse monumental acervo em pé, não há como não se emocionar ao ver as imagens de um menino feliz segurando galinhas, o sorriso e a gola da camisa cuidadosamente engomada para a foto da escola pública e para a carteirinha de passe escolar da CMTC e uma redação por ditado escrita aos onze anos para o exame de admissão ao primeiro ano do Colégio Estadual de São Paulo em 1949 com o título de "Saudade": "Os lugares trágicos recebem sempre do tempo a compensação de uma velhice pacífica e amável na decadência. Não há ruínas cruéis; as masmorras vazias não são temerosas..."

DItado e cartão do passe escolar de Vladimir Herzog

DItado e cartão do passe escolar de Vladimir Herzog

Para quem se lembra do que era ter uma cadernetinha de bolso com índice alfabético, espaços para nomes, telefones e endereços não há como não dar aquele pequeno sorriso de grata surpresa ao se deparar com os nomes de Anselmo Duarte, Arnaldo Jabor e Antonio Abujamra anotados com uma letra caprichosa por Herzog logo na letra A ao lado de números telefônicos de apenas seis dígitos, como o sonoro 26-7749 de Arnaldo.

Caderneta de endereços de Vladimir Herzog com os nomes
de Anselmo Duarte, Arnaldo Jabor e Antonio Abujamra

Caderneta de endereços de Vladimir Herzog com os nomes
de Anselmo Duarte, Arnaldo Jabor e Antonio Abujamra

Os nomes ligados ao cinema e ao teatro na cadernetinha não são apenas contatos de fontes da área cultural para um jovem jornalista em início de carreira no principal jornal do País. Os palcos e as telas eram mais que uma diversão natural da época. Se os ofícios criativos do cinema dos quais se aproximaria num futuro próximo ainda pareciam distantes naquele início dos anos sessenta, a atuação teatral era uma realidade desde a adolescência. Foi num desses grupos que conheceria uma pessoa chave em sua vida, a atriz Lélia Abramo, a quem se atribui também a abertura das portas do jornalismo para Vladimir Herzog apresentado-o a Claudio e Perseu Abramo, que exerciam posições de comando neste Estadão.

Contratado pelo jornal como "noticiarista" em maio de 1960 após um período de experiência iniciado em 1959, conforme consta em sua carteira de trabalho [um dos vários itens da seção 'registros civis' do site], seria na redação do Estadão no número 28 da rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, que Herzog teria sua formação como jornalista após cursar a faculdade de filosofia na Universidade de São Paulo.

E que período de experiência. Após alguns meses de típicas reportagens destinadas a repórteres iniciantes, como a abertura da Festa do Vinho de São Roque e a inauguração de uma escola estadual pelo brigadeiro Eduardo Gomes no interior de São Paulo, Vladimir Herzog seria mandado para uma prova de fogo do jornalismo em abril de 1960: a grande cobertura da histórica inauguração de Brasília. A partir dali, a política seria o seu novo ambiente, viajando pelo Brasil acompanhando candidatos na campanha eleitoral para suceder Juscelino Kubitschek, culminando com a volta a Brasília no ano seguinte para a posse de Jânio Quadros.

Vladimir Herzog na cobertura da inauguração de Brasília

Vladimir Herzog na cobertura da inauguração de Brasília

Entre os dois fatos históricos, uma pauta deixaria Vladimir Herzog impressionado e o mudaria para sempre: a cobertura da viagem dos filósofos franceses Jean Paul-Sartre e Simone de Beauvoir ao Brasil. O impacto das falas de Sartre foram fundamentais para uma guinada de Herzog rumo ao jornalismo cultural e, mais que isso, uma completa transformação em seu modo de pensar a cultura e sua ligação com a vida das pessoas. Até então com gosto bastante erudito, apreciador de ópera, teatro sofisticado e cinema francês, Vlado, como também era chamado, experimentou ao presenciar as falas de Sartre uma daquelas experiências transformadoras que de vez em quando temos na vida. As questões estéticas passaram a ter agora a companha obrigatória das questões sociais.

A transformação deste homem pré e pós Sartre pode ser vista no vasto material disponível no site que conta com quase 3 mil itens digitalizados a partir de 1.700 documentos, como cartas, bilhetes, manuscritos e fotografias de todas as fases da vida coletados num trabalho arquivístico que beira o primoroso. Além de possibilitar ver Herzog nas suas diferentes fases da vida, o site contém centenas de imagens de autoria do próprio Herzog, sendo possível ver através de seus olhos estudos para o projeto de um documentário sobre Antonio Conselheiro e Canudos, como também prosaicas cenas do cotidiano familiar em passeios com a mulher e os filhos. Imagens e memórias de um homem vivo.

Vladimir Herzog no Estadão

Em março de 2017, a então estudante de jornalismo Caroline Simões escreveu para o Acervo Estadão uma mensagem diferente de todas que costumamos receber dos futuros repórteres. Em vez de solicitar a possibilidade de uma pesquisa sobre a história do jornal, pretendia descobrir todos os textos de autoria de Vladimir Herzog publicados no Estadão, inclusive os não creditados, dos quais soube através de entrevistas com colegas que trabalharam com o jornalista nos anos sessenta. "Como ninguém tinha pensado nisso antes?", foi a nossa reação aqui no Acervo.

Dias depois, as portas, e também os infalíveis índices do jornal concebidos por Armando Augusto Bordallo nos anos 50, estavam abertos para Caroline realizar o levantamento que aqui segue com reportagens de autoria ou atribuídas a Vladimir Herzog, bem como menções a ele em eventos do jornal. Pequena parte destes registros foi acrescentada pela equipe de pesquisadores do Acervo Vladimir Herzog coordenada por Luis Ludmer, que rastrearam traços do estilo de Herzog em matérias não assinadas, a quem o Acervo Estadão agradece por aprimorar e compartilhar esse material histórico.

Reportagem de Vladimir Herzog sobre a viagem de  Rita Hayworth ao Brasil.

Leia as reportagens de Vladimir Herzog no Estadão

> 1/8/1959

Almoço no Estado

 

4/10/1959: 

Importância das Pesquisas de Biologia Marinha para a Economia da Pesca

 

18/10/1959

Inaugurada em S. Roque a VIII Festa do Vinho

 

24/10/1959

Inaugurado ontem o ginasio estadual "D. Jenny Gomes"

 

12/1/1959

Realizou-se em Brasília o 1 Congresso Nacional dos Brasileiros Naturalizados

 

14/2/1960

Estudados em Santos métodos de aperfeiçoamento da pesca

 

16/2/1960

Industrialização do peixe traria solução ao problema do pescado em nosso Estado

 

21/2/1960

Iminente o desvio do Rio Grande para a construção da barragem de Furnas

 

10/3/1960

Fator imprevisto antecipou a abertura dos túneis de Furnas

 

>  10/4/1960

Pessedistas gaúchos aderem à campanha de Jânio Quadros

 

12/4/1960

O povo do interior gaúcho recebe com entusiasmo o candidato ds oposições

 

22/4/1960

No eixo rodoviário as Três Armas desfilaram

 

23/4/1960

Um dia da vida na cidade nova. Metamorfose. Rescaldo

 

>  4/6/1960

Combate às endemias na Inha do Bananal

 

>  9/6/1960

1º contácto com o Rio

 

8/7/1960

Lott em Ribeirão Preto. Cuba, café e açúcar

 

9/7/1960

Satisfação do marechal Lott pela decisão de Kubitschek. A decisão do presidente

 

>  16/7/1960

O governador visitou ontem 16 municípios da Noroeste

 

>  17/7/1960

Faz Carvalho Pinto apologia de Jânio. Apoio a Jânio

 

>  17/7/1960

O governador na Noroeste: saldo favorável ao Executivo

 

>  17/7/1960

O governador em Lins

 

>  31/7/1960

Repercussão da visita do governador ao litoral Sul do Estado

 

>  10/8/1960

O presidente interino (Mazzilli) ficou 2 h na Capital e visitou Caconde. Honras militares

 

17/8/1960

Jânio e Milton na Noroeste e também em Mato Grosso

 

18/8/1960

Líderes do PTB na Noroeste apoiam a chapa de Jânio-Milton

 

21/8/1960

Jânio: a denuncia feita é de visível inspiração do PCB. Intrigas e ameaças

 

3/9/1960

Sartre falou uma hora em tom didático

 

29/10/1960

Caravana a Rondonia

 

11/13/1960

Retirados da mata os sobreviventes do Cessna 170

 

>  13/11/1960

Já em Rondonia a caravana rodoviaria

 

 15/11/1960

Capotou depois do pouso

 

22/11/1960

Prognósticos sobre a BR-29

 

 9/3/1962

Conversa com Alida Valli

 

 9/3/1962

"Gilda" sambou no Portela e falou sobre Orson Welles

 

 20/3/1962

Vai a Mar Del Plata

 

29/3/1962

Fitas irregulares do Japão e da Hungria

 

 31/5/1962

O mundo infantil em duas fitas européias

 

 1/4/1962

Mar del Plata. Interesse pelo cinema brasileiro. União Sovietica. Polônia

 

 3/4/1962

Termina o Festival de Mar dek Plata; vence fita italiana. O melhor filme. Outros premios. Truffaut. Juri da critica

 

 5/4/1962

Truffaut: "Não há cinam sem poesia e poesia sem moral"

 

 6/4/1962

Possibilidades e limites do novo cinema da Argentina

 

 7/4/1962

Documentarista da Holanda fala de seu processo de criação

 

 8/4/1962

A ultima fita de Fançois Truffaut

 

>  12/4/1962

Para o atual cinema da União Sovietica o exemplo é Dovjenko

 

>  13/4/1962

Mar del Plata: do meio-dia às seis da manhã

 13/4/1962

Paul Newman e a arte dramática

15/4/1962

Renovação do cinema propõe o grupo da "Escola de Nova York"

 

 27/4/1962

Atrizes: a nova geração argentina

 

 16/6/1962

Diálogo com os russos: Tcherkassov

 

 23/6/1962

Stanislawski repensado: Batalov

 

 26/10/1962

Cães de ontem e de anteontem

 

 15/12/1962

Uma questão de fome

 

 16/3/1963

Birri de Santa Fé

 

 14/12/1963

Linhas Retas & Tortas

 

Carteira funcional de Vladimir Herzog no Estadão

Carteira funcional de Vladimir Herzog no Estadão

Veja também:

> A morte de Vladimir Herzog 

> Outras notícias históricas

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Incêndio do edifício Joelma em 1974

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