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Amo estruturar o caos, diz data manager do Rijksmuseum

Especialista holandesa participa do III Seminário de Arquivos e Museus em São Paulo

13 de setembro de 2013 | 14h 38
Carlos Eduardo Entini

Um mundo novo na gestão de informação de museus e arquivos começa a surgir com o avanço das possibilidades digitais. O cargo da holandesa Lizzy Jongma, data manager no museu Rijksmuseum em Amsterdã, ilustra esse impacto tecnológico nos ambientes responsáveis pela preservação de obras de arte e documentos com séculos de idade. Historiadora de formação, Lizzy tem a função de integrar os sistemas de informações do museu, um dos mais importantes da Holanda, com um acervo que inclui o quadro A Ronda Noturna, de Rembrandt. “Nós temos fluxos de informação constantes dos objetos [digitais] dentro do museu e do museu para o mundo exterior. Para conectar toda a informação digital e os sistemas de informação do Rijksmuseum foi contratado um data manager", explica Jongma. Um dos resultados foi um site onde o usuário têm uma ampla interação com as obras de arte, podendo montar sua própria exposição, compartilhar imagens ou comprar uma reprodução fotográfica. 

Na entrevista que concedeu por e-mail ao Estadão Acervo, a especialista holandesa, uma das convidadas do III Seminário Internacional Arquivos de Museus e Pesquisa, na próxima semana, em São Paulo, fala sobre a nomenclatura do cargo (comum em empresas de tecnologia, mas novidade em instituições culturais) e de outras questões que, se ainda não chegaram, estão prestes a chegar aos arquivos e museus que digitalizam seus acervos.

Você já tinha trabalhado em outra instituição cultural antes do Rijksmuseum?
Comecei como webmaster e gerenciador de aplicativos em bibliotecas e arquivos. Trabalhei como consultora de ICT [Information and communication technology] para a Associação de Museus Holandeses e para outras instituições, principalmente de museus e arquivos.

Por que um data manager em um museu?
Nós armazenamos mais de um milhão de objetos em nossas coleções. Nós os guardamos preservamos, digitalizamos e os emprestamos para outros museus, nós os pesquisamos, e assim por diante. Nós temos fluxos de informação constantes dos objetos dentro do museu e do museu para o mundo exterior. Para conectar toda a informação digital e os sistemas de informação do Rijksmuseum, foi contratado um data manager. Eu trabalho como gerente de aplicação, mas não cuido só tecnicamente de um sistema. Cuido de toda a informação digital sobre a nossa arte e assessoro o museu em novos desenvolvimentos.


Interação: o internauta pode montar sua própria exposição ou imprimir as obras do museu em outros objetos

Quais as habilidades que um data manager deve ter?
Conhecimento sobre a estrutura da informação e estruturas técnicas (por exemplo, XML). Alguma experiência em programação ajuda. Conhecimento da fotografia digital e digitalização, embora tenhamos fotógrafos experientes que sabem muito mais do que eu. Conhecimento de ICT. É bom saber quais sistemas estão sendo usados, quem está usando. Conhecimento técnico do thesaurus, de vocabulário controlado e da estrutura da informação e conhecimento dos padrões utilizados nos museus bibliotecas e arquivos. Eu acho que minhas habilidades mais importantes são o meu amor para estruturar o caos e minha curiosidade técnica. Estou sempre interessado em novas técnicas e ver como elas podem ajudar a melhorar as coisas que fazemos.

Existem outros museus com data manager?
Boa pergunta. Há um grande número de nomes de cargos para o tipo de trabalho que faço. Eu sei que várias organizações de informação na Holanda têm arquitetos de informação ou outros tipos de cargos [nomenclaturas] que fazem o mesmo que eu. Eu só sei de dois outros museus holandeses que têm  um data manager. Um museu recentemente dispensou sua data manager por causa da crise econômica.

O seu trabalho no museu é pioneiro?
Sim. Os museus da Holanda são retardatários no que diz respeito à inclusão de suas coleções online (em comparação aos arquivos e bibliotecas) e digitalização de acervos. A maioria dos museus imitou [a estrutura das] bibliotecas e arquivos, mas não funcionou, nem na internet, nem dentro do museu. Estamos todos concentrados em ver o que a mídia digital pode fazer pelo museu. E tudo tem mudado o tempo todo. Estamos atualmente no meio da revolução do iPad, estamos vendo a evolução 3D, a web semântica está começando a crescer, Google Glass etc. Estou nessa área desde 1998 e nunca tive um momento de tédio.

O que vem pela frente?
Objetos digitais tangíveis (Google Glass, 3D, escaneamento e impressão) é o que virá.

Qual a estrutura do seu departamento?
Eu trabalho no Departamento de Informações do Acervo. Nós temos cinco especialistas em informação e um gerenciador de aplicativos. Temos uma equipe de 10 analistas de informação (os curadores do museu verificam apenas as descrições dos objetos e adicionam informações científicas. Mais informações sobre os objetos catalogados são incluídas pelos analistas de informação, detalhou Jongma em outro e-mail) e cinco fotógrafos para digitalizar as coleções. E outras duas pessoas em nosso que cuidam do nosso site.

O site do Rijksmuseum permite interação entre o usuário e a coleção. Como as imagens foram preparadas para obter a interação?
Sempre tivemos as imagens em alta resolução. Já tínhamos um site e descobrimos que imagens em baixa resultou em impressões de péssima qualidade [no site do Rijksmuseum o usuário pode baixar as imagens das obras e imprimi-las ou aplicá-las em objetos]. Nosso website atual levou dois anos para ir ao ar. Tínhamos visões muito claras sobre a interação. Nosso objetivo era que fosse possível tocar arte e recriar a arte com a nossa arte. Mas a tecnicamente foi muito complicado. Quando começamos a construir o site, o iPads [o sistema iOS] era referência. Todo o código foi reescrito para HTML5. O software foi escrito para cortar imagens de alta resolução pedaços para que fosse possível ampliá-las sem ter que esperar por horas para o iPad para baixar a imagem inteira. Nós construímos um software que analisa as cores das imagens para que seja possível pesquisar por cor. Tivemos que construir um módulo de usuário para coleções Rijksstudio, etc .Esses são apenas alguns exemplos do que construímos. Nós usamos software de código aberto que está disponível, mas muito não estava e teve que ser construída.

Qual era a expectativa de interação com o site?
Esperávamos pessoas que amam e apreciam arte. Mas fomos surpreendidos com o número de visitantes do nosso site e o fato de que as pessoas permaneçam nele por mais de 10 minutos. Portanto, muito mais do que o esperado. Mais de 200 mil imagens já foram baixadas.

Como tem sido a interação, o público tem espalhado as obras do museu?
Sim. Já foram criadas mais de 100 mil coleções no Rijksstudio. Nosso Rijksmuseum API foi baixado mais de mil vezes. Recebemos elogios de todo o mundo.

O que é Rijksmuseum API?
É uma ferramenta para programadores. Eles podem usá-la para fazer download do conjunto de nossos objetos. Com ela é possível montar um site ou  aplicativo. Nossos dados estão disponíveis para que os programadores façam o que eles querem, eles também podem criar aplicativos comerciais com nossa coleção. As pessoas sempre perguntam se isso não é uma ameaça para nós. Nossos aplicativos estão disponíveis gratuitamente. A maioria dos aplicativos desenvolvidos com os nossos dados são os jogos construídos para se divertir, a cerca de um artista específico, como Rembrandt. Eles não são uma ameaça: é um complemento do que fazemos.

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