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Assassinato de PC Farias, 25 anos de um crime sem solução

A misteriosa morte do pivô do escândalo de corrupção do governo Collor que ainda intriga o País

23 de junho de 2021 | 15h 15
Carlos Eduardo Entini e Liz Batista - O Estado de S.Paulo

PC Farias em depoimento à CPI que investigou sua atuação no governo Collor, Brasília, DF, 1992.

PC Farias em depoimento à CPI que investigou sua atuação no governo Collor, Brasília, DF, 1992.

Nome habitual do noticiário político desde 1992, quando foi revelado o escândalo de corrupção que levou ao impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, PC Farias, o ex-tesoureiro e figura central no esquema de desvio de verbas e lavagem de dinheiro que abalou a República, voltou às manchetes em 24 de junho de 1996 quando a estarrecedora notícia de seu assassinato ganhou as capas dos jornais.

>> Estadão - 24/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

PC Farias assassinado em Maceió”, noticiou o Estadão no dia seguinte ao crime. A notícia da capa seguia informando que “o empresário Paulo César Farias, de 50 anos, foi morto com um tiro no peito, ontem (23/6/1996) em sua casa da Paria de Guaxuma, em Maceió. Seguranças de PC encontraram seu corpo às 11 horas, ao lado do da namorada Suzana Marcolino, de 28 anos, também morta com um tiro no coração.

Contava também que, de início, a polícia e a família do empresário acreditam em crime passional e contava sobre os planos que PC Farias, em liberdade condicional após cumprir dois anos e dois meses de prisão, tinha de abrir um jornal e retornar à política. 

>> Estadão - 24/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

Em 2019, a Justiça alagoana negou a última apelação para reverter a decisão que inocentou os acusados do crime e colocou um ponto final no “Caso PC Farias”. No curso das investigações e dos processos penais, que levaram 22 anos, a versão inicial sobre crime passional foi descartada após novas perícias, a tese de duplo homicídio foi reconhecida por júri popular, mas  nenhuma condenação foi alcançada, tão pouco avançaram as apurações sobre possíveis mandantes -versão defendida pela promotoria que defendia a tese de queima de arquivo. O crime segue sem solução até hoje.

>> Estadão - 25/6/1996

>> Estadão - 25/6/1996

>> Estadão - 25/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

>> Estadão - 24/6/1996

Investigações.O projétil transfixou o lóbulo superior do pulmão esquerdo, deu continuidade à sua trajetória em direção ao mediastino, transfixou o mediastino posterior, arrebentou a aorta, lesionou a veia cava, bateu em seguida no corpo vertebral ao nível torácico, Depois passou entre o corpo torácico e um tecido extremamente resistente que o envolve. Em seguida, atingiu o arco costal, fraturou-o, modificou a sua trajetória pela segunda vez e foi parar onde foi encontrado”.

O texto que parece saído de um diálogo da série  americana CSI, programa de TV que aborda o trabalho da polícia científica para desvendar crimes misteriosos em cidades dos EUA, é a explicação da trajetória da bala que matou PC Farias pelo legista Bandan Palhares, em 1996. E foi dita durante debate realizado no Estadão em 15 de agosto daquele ano, para jogar luz sobre as versões do crime defendidas pelas perícias. 

Badan Palhares e George Sanguinetti debatem laudos da morte de PC, em 1996.

Badan Palhares e George Sanguinetti debatem laudos da morte de PC, em 1996.

A misteriosa morte de PC Farias e sua namorada Suzana Marcolino levou para o público brasileiro um debate inédito entre laudos repletos de termos técnicos. Durante meses, o País discutiu a tese do coronel da reserva da PM de Alagoas e professor de medicina legal, George Sanguinetti contestando o laudo pericial feito por Palhares. Para ele, PC Farias não teria morrido no local onde o corpo foi encontrado. Teria sido arrastado para dentro do quarto, e sua namorada não teria cometido o suicídio.

>> Estadão - 15/8/1996

>> Estadão - 15/8/1996

>> Estadão - 15/8/1996

Sanguinetti também contestava em seu laudo a trajetória das balas. Já o legista Badan Palhares, responsável pela autópsia, defendeu a tese de homicídio seguido de suicídio. Em 1999, a disputa entre laudos e legistas extrapolou a discussão científica. Sanguinetti chegou a acusar Badan de ter recebido R$ 400 mil para que forjasse o laudo e acusou o irmão de PC, Augusto Farias, pelo duplo homicídio. Badan Palhares chegou a processar o colega por calúnia e difamação. Essas acusações foram arquivadas pelo STF em 2002.

Homem forte do governo Collor. Ele não tinha cargo no governo Collor. Não falava publicamente. Suas poucas falas eram pinçadas em festas. “Nesse governo eu só quero indicar os titulares de dois cargos, o ministro do Exército e o secretário da Receita Federal”, disse PC Farias na festa de comemoração da eleição de Collor em 1989. Era reconhecido como o tesoureiro de campanha - e responsável por arrecadar verbas - ou amigo íntimo do ex-presidente. Daí vinha a força do homem mais poderoso governo Collor.

>> Estadão - 11/11/1990

>> Estadão - 11/11/1990

>> Estadão - 11/11/1990

Viveu nos bastidores até outubro de 1990 quando foi acusado de usar de sua influência para pressionar a BR Distribuidora a ceder um empréstimo de US$ 40 milhões para a Vasp. A denúncia resultou na demissão do presidente da Petrobrás, Luiz Octávio da Motta Veiga, que qualificou as condições do empréstimo como “inaceitáveis. Motta tirou PC Farias das sombras em que vivia, e mostrou que ele sua atuação em articulações nada transparentes.

Depois da denúncia, PC Farias nunca mais voltou para os bastidores, mas seus negócios nunca foram inteiramente esclarecidos. 

Luiz Otávio da Motta Veiga, o ex-presidente da Petrobrás entrou em rota de colisão com PC Farias ao denunciar um pedido de empréstimos e foi demitido do cargo depois de negá-lo. Foi acusado de ter se aliado ao corporativismo da estatal. Veiga, que resistiu às pressões de PC, fazia questão que as visitas de PC Farias fossem registradas na portaria da Petrobrás e anotou em sua agenda diversas conversas com ele.

>> Estadão - 21/10/1990

>> Estadão - 21/10/1990

>> Estadão - 21/10/1990

O senador Renan Calheiros(MDB-AL), na época líder do PRN, partido de Collor, e que ao longo dos anos teve uma relação de idas e vindas com o político alagoano, chegou a chamar PC Farias de "um gângster, um Al Capone da política alagoana" e o acusou de fraudar eleições em Alagoas.

Em maio de 1992 , Pedro Collor de Mello, irmão do então presidente, Fernando Collor de Melo, denunciou um esquema de corrupção comandado por PC no governo Collor, deflagrando a crise política que derrubou seu irmão da Presidência em dezembro do mesmo ano. Uma CPI foi instaurada no Congresso Nacional em junho de 1992, para investigar o que ficou conhecido como "Esquema PC". A comissão trouxe à tona os esquemas de superfaturamento de contratos, lavagem de dinheiro em contas fantasmas e extorsão operados por PC. Diante das denúncias, milhares saíram às ruas para pedir o a saída de Collor, impulsionando seu impeachment.

>> Estadão - 25/8/1992

>> Estadão - 25/8/1992

>> Estadão - 25/8/1992

>> Estadão - 6/6/1996

>> Estadão - 6/6/1996

>> Estadão - 6/6/1996

Em 1993, PC Farias foge do País após o STF decretar sua prisão preventiva por crime de corrupção passiva, mas após, pouco mais de três meses, é capturado na Tailândia. Em 1994, foi condenado pelo STF a sete anos e quatro meses de prisão em regime fechado por falsidade ideológica e sonegação fiscal no STF.  Quando foi assassinado em 1996, encontrava-se em liberdade condicional. 

>> Estadão - 30/11/1993

>> Estadão - 30/11/1993

>> Estadão - 30/11/1993

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