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Avenida 9 de Julho: o lugar das estátuas malditas

Obras criticadas pela sociedade foram colocadas nos canteiros da avenida

17 de dezembro de 2015 | 18h 04
Carlos Eduardo Entini e Liz Batista

 
'Idílio', 'O Menino e O Catavento' e 'São Paulo', obras foram colocadas e removidas da 9 de Julho  


Durante décadas a Prefeitura de São Paulo viu frustrada sua tentativa de esconder estátuas polêmicas na Avenida 9 de Julho. Usando o isolamento como uma forma de ocultar as obras dos olhares críticos, a administração usava a seguinte técnica: colocava as peças em pontos mais distantes do público e vedados aos pedestres, como no canteiro central ou na entrada do túnel.

Quatro obras, em diferentes décadas, foram colocadas na avenida: Laocoonte e seus filhosBeijo Eterno ou Idílio; O Menino e O Catavento e São Paulo Apóstolo. Nenhuma permaceu. A impossibilidade da Prefeitura colocar um monumento ali que não fosse criticado rendeu ao local o apelido, de "lugar maldito".


Duas esculturas que retratam figuras humanas nuas causaram um rebuliço. A colocação das obras Beijo Eterno (1922), e O Menino e O Catavento (1914) na avenida fez chover reclamações da patrulha defensora da moral e dos bons costumes. Mesmo distante das calçadas, as esculturas ainda perturbavam aqueles que “não admitem nudez, seminudez mesmo numa obra de arte”, como contou o Estado de  30/11/1966.

Após os protestos, Idílio e O Menino e O Catavento acabaram sendo removidas por estudantes da Faculdade de Direito, que decidiram levá-las para o Largo São Francisco onde estão até hoje. Antes delas, a obra Laocoonte e seus filhos (1938) - uma réplica de uma estátua grega criada pelo Liceu de Artes e Ofícios - também foi retirada dali. Hoje ela está no Parque do Ibirapuera

Beijo Eterno. Originalmente parte do Monumento a Olavo Bilac, a obra foi criada pelo escultor sueco William Zadig, à pedido dos alunos do Centro Acadêmico Onze de Agosto da Faculdade de Direito Largo São Francisco.  

Estátua 'Idílio' atrai olhares em 1966. Acervo/Estadão

Cercada por polêmica, a estátua só encontrou morada certa em 1966, quando foi levada o Largo São Francisco. Antes disso, ela perambulou pela cidade, como mostra o projeto Memória da Amnésia de Giselle Beiguelman, artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). A peça seguiu um roteiro de reclamações, protestos e abaixo-assinados para sua remoção. Sobre as críticas à obra, Beiguelman disse que ela chocou "não tanto pela nudez", mas por ter outro ingrediente considerado "ultrajante" pelos reclamantes. A escultura mostra "um branco beijando uma índia", algo "muito forte para um determinado contexto conservador", explicou.

A perambulação do Beijo Eterno começou quando ela foi removida do monumento ao qual pertencia e levada para o depósito da Prefeitura em 1936. Lá ficou até ser levada para o bairro de Pinheiros, onde foi colocada em frente ao Colégio Fernão Dias Paes. Os pais dos alunos consideraram a estátua imoral e pediram sua retirada. De lá foi para o depósito da Prefeitura, onde ficou até 1965, quando foi levada para o Largo do Cambuci. Um abaixo-assinado dos moradores do bairro fez com que ela retornasse ao depósito. Até que o prefeito Faria Lima decidiu colocá-la próxima à entrada do Túnel 9 de Julho.

O Estado de S.Paulo- 08/10/1966

Dias depois, o vereador Antonio Sampaio pedia a palavra na Câmara para protestar sobre a obra, chamou-a de obscena e disse que era um atentado aos bons costumes. Foi então que, em 18 de outubro de 1966, os estudantes do Centro Acadêmico XI de Agosto decidiram resgatá-la e levá-la para o "Território Livre" da Faculdade de Direito. A ação dos jovens não terminou por aí. Em carta eles ameaçaram reagir caso a obra fosse removida: “se a estátua “Idílio” for retirada do Largo São Francisco, vestiremos todas as outras estátuas nuas da cidade e colocaremos aliança nas que representam pessoas abraçadas”.    

O Estado de S. Paulo -  19/10/1966


O Menino e o Catavento. Peça de O.M. di Palma, a escultura é de 1914 e foi originalmente colocada no Parque Anhangabaú. No final dos anos 1940 foi retirada do parque e levada papa o depósito da Prefeitura. Depois foi colocada no canteiro da Avenida 9 de Julho. Também maldita, a peça provocou "torcer de narizes", como contou a matéria do Estado de 30 de novembro de 1966. Ela foi removida e levada para o Largo São Francisco pelos estudantes de Direito em abril de 1967.

O Estado de S.Paulo- 30/11/1966
 
 

Estátua de São Paulo Apóstolo. Em 1969, houve mais uma tentativa de adornar a avenida. A estátua de São Paulo Apóstolo (1969) foi colocada na entrada do túnel. A obra também não foi poupada de críticas. Diziam que o santo estava torto e reclamavam de suas vestes. Seu criador, o escultor Júlio Guerra, autor de obras como a estátuas Borba Gato e Mãe Preta, explicava que havia recriado o apóstolo tal qual descrita em textos bíblicos. Por isso as roupas curtas e puídas. Em 1972 a imagem foi retirada para um restauro e nunca mais retornou à Nove de Julho. Hoje está na Avenida Roque Petroni Júnior, ao lado do Shopping Morumbi.

O Estado de S.Paulo- 19/11/1972

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Tags: MonumentoPatrimônio Histórico, Olavo Bilac, Avenida Nove de Julho

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