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Biblioteca da Casa do Povo ganha vida nova

Instituição dá novo sentido para uso do acervo; inauguração será em 11 de maio

09 de maio de 2019 | 14h 32
Carlos Eduardo Entini - Acervo Estadão

Imagine uma biblioteca como se fosse uma sanfona. Expande e retrai. E a cada movimento emite um som, no caso um novo significado. É assim que vai ser a nova vida da biblioteca da Casa do Povo, tradicional instituição da comunidade judaica localizada no Bom Retiro, que será reinaugurada nesse sábado (11).

Montagem da biblioteca da Casa do Povo - CEE/Acervo Estadão

Montagem da biblioteca da Casa do Povo - CEE/Acervo Estadão

Com mais de 8 mil livros e outros milhares de objetos e documentos, o acervo da Casa do Povo começou na década de 1930 com a chegada dos imigrantes vindos do leste europeu trazendo os primeiros livros. Por isso boa parte dos livros são em iídiche, a língua falada pelos judeus do leste da Europa.

De acordo com Bejamin Seroussi, diretor-executivo da instituição, a nova fase da biblioteca não é um ponto final, mas partida. O projeto foi pensando nas características da instituição. Atualmente a Casa do Povo é formado por vários coletivos atuando em distintas áreas como moda, grupos de leitura e tipografia.

Detalhes do móveis feitos conforme as características do acervo - CEE/Acervo Estadão

Detalhes do móveis feitos conforme as características do acervo - CEE/Acervo Estadão

Como cada uma delas não atua em um espaço definido fisicamente, a biblioteca também deveria seguir o mesmo principio, explica Marilia Loureiro, uma das idealizadoras da biblioteca. Por outro lado, cada coletivo tem seu próprio acervo. Portanto, não teria sentido juntar tudo em um local só.

Para chegar a esse modelo, que para Seroussi deveria responder o que é, o que faz o que ela quer ser e qual seria o legado para a comunidade judaica e para o bairro, foi criado um grupo de estudos envolvendo outras instituições como o Sesc, museu Judaico, MTST e o Centro Cultural de São Paulo. Na troca de ideias surgiu o exemplo das bibliotecas existentes nos acampamentos do MTST onde o local de leitura era o refeitório, onde havia mais circulação de pessoas. Portanto, o espaço de ler não precisa ser uma sala, conclui Loureiro. E o resultado foi um modelo de biblioteca permeável para ocupar os espaços. Por outro lado havia a necessidade de que os livros fossem lidos, ressalta Seroussi. É por causa dessa dinâmica que o projeto se chama Arquivo Vivo. A única centralidade do projeto será o banco de dados, onde todo acervo estará reunido.

Nesse panorama surge a necessidade de móveis adequados ao conceito. Quem se ocupou da tarefa foi o Grupo Inteiro. O resultado foi um conjunto de móveis - realmente móveis - que podem circular pelos espaços e cumprir o prometido efeito sanfona. As peças foram desenhadas respeitando a arquitetura da casa, o formato do material e o pensamento da instituição, explica Claudio Bueno, um dos artistas do grupo envolvido no projeto.

Acervo de modelagens e painel móvel da biblioteca sendo instalado - CEE/Acervo Estadão

Acervo de modelagens e painel móvel da biblioteca sendo instalado - CEE/Acervo Estadão

Curadoria. E como apresentar os livros e quais? Para o primeiro momento foi feita uma triagem com livros e documentos que são relacionados à instituição depois de centenas deles terem sidos espalhados pelo salão do primeiro andar e analisados por um grupo, explica Loureiro. Mas essa curadoria será o mote. Por exemplo, como muitos dos livros doados passaram de mão em mão entre os imigrantes e seus parentes, vários deles possuem dedicatórias.

Parte do acervo de livros em iídiche da Casa do Povo - CEE/Acervo Estadão

Parte do acervo de livros em iídiche da Casa do Povo - CEE/Acervo Estadão

Em julho está marcado um mutirão, comandado pela artista Mariana Lanari, onde todos os livros serão espalhados no salão e dali sairá uma nova leitura do acervo.

Anjos da guarda. Como se sabe, a região do Bom Retiro, e adjacências, mudou completamente de característica a partir da década de 1970. O bairro perdeu a dinâmica residencial quando as casas deram lugar às lojas de confecção e tecidos. Menos moradores, logo a atratividade do bairro se restringiu ao horário comercial. As instituições sentiram isso. E não foi diferente para a Casa do Povo. O teatro TAIB, uma das maiores atrações da casa, fechou as portas no começo dos anos 2000.

Em consequência, as atividades da Casa do Povo diminuiram. “Mas não pararam”, adverte Marina Sendacz. Foi ela uma dos anjos da guarda, 'ainda bem que alguém reconhece” disse Marina, que durante todo esse período continuou a preservar os documentos e salvar os livros, revistas e periódicos de todos os perigos. Sendacz tem boa parte dos seus 70 anos ligados à Casa do Povo. Estudou e foi professora no colégio que existia na instituição. Hoje, as pratas da casa, os quase 6 mil livros em iídiche e o jornal 'Nossa Voz' – fundado em 1947 e empastelado em 1964 pela ditadura - que ficaram sob a guarda de Marina e de outros anjos, estão higienizados.

O projeto foi financiado pelo Proac e contou com ajuda das empresas do bairro. A Casa do Povo fica na Rua Três Rios, 252, próximo à estação Tiradentes do metrô.

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