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Com 'Lúcio Flávio', Hector Babenco se fez brasileiro

Da mente de um argentino nasceu o retrato mais vivo da violência policial no Brasil

14 de julho de 2016 | 13h 36
Liz Batista


Hector Babenco,1986. Foto: Marisa Uchiyama/Estadão  

Na filmografia de Hector Babenco, o filme Pixote, a Lei do mais Fraco (1980) pode ser apontado como sua obra mais conhecida, mas antes dele, foi Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia (1978) que trouxe seu primeiro sucesso de crítica e bilheteria. O filme, que retrata de maneira impactante a violência e a corrupção policial  no Brasil da década de 1970 e aborda a atuação do grupo de extermínio conhecido como Esquadrão da Morte, foi o responsável pelo reconhecimento de Babenco como um nome forte do cinema nacional. Arrecadou 10 milhões de cruzeiros em quase dois meses - 4 vezes mais que seu orçamento. Rendeu ameaças de morte e foi, segundo o cineasta argentino, o filme que fez ele se reconhecer como brasileiro.

O autor contou ao Estado como concebeu o roteiro de Lúcio Flávio, e relatou as ameaças sofridas quando a produção estreou. As declarações estão na análise publicada em 02 de abril de 1978, que traz também as opiniões do repórter policial Percival de Souza e do procurador de Justiça no Estado de São Paulo Hélio Bicudo, conhecido internacionalmente por combater o Esquadrão da Morte, durante a ditadura militar, e conduzir investigações sobre violações dos direitos humanos

O Estado de S. Paulo - 2/4/1978

Em entrevista à Marion Frank e Caio Fernando Abreu, publicada no o Estado de 13 de abril de 1986, o cineasta contou como Lúcio Flávio foi de suma importância dentro da sua decisão de pedir a naturalização brasileira, e  também revelou em detalhes o telefonema ameaçador que recebeu de Mariel Mariscot.

O Estado de S.Paulo - 13/4/1986

"Eu tinha sido tão massacrado como argentino-judeu-imigrante fazendo cinema fora da inteligência do Cinema Novo, que comecei a me sentir culpado. E não só pedi a naturalização brasileira, como resolvi fazer um trabalho que demonstrasse como eu estava lendo este País. Um País onde a polícia estava aniquilando em nome de Deus-já que ninguém contestava, só poderia ser em nome de Deus, não? A polícia matando mil pessoas na periferia das cidades e atribuindo isso a um póetico nome de Esquadrão da Morte, a imprensa alimentou isso como se fosse um anagrama chinês, ou uma metáfora do André Breton! E ninguém se perguntando quem eram as pessoas com quem iss acontecia e não havia um registro disso nos meios de comunicação. Então eu disse: vou mostrar a mim mesmo e às pessoas como é que estou vendo este país. E decidi fazer Lúcio Flávio, que para mim era um atestado de naturalização.”

Mais sobre Héctor Babenco:

O Estado de S. Paulo - 25/9/1980



O Estado de S. Paulo - 6/5/1995

O Estado de S. Paulo - 10/12/1991

O Estado de S. Paulo - 28/9/1998

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# Capa com cartaz do filme King Kong em 1933

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