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Dom Paulo: uma história de luta conta a ditadura

Matérias censuradas revelam a extensa atuação do cardeal na defesa dos direitos humanos

14 de dezembro de 2016 | 12h 40
Liz Batista

Dom Paulo Evaristo Arns, 04/4/1970. Acervo/ Estadão

O cardeal-arcebispo emérito de São Paulo D.Paulo Evaristo Arns foi uma das figura mais atuantes na defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar. Sua coragem em delatar abusos cometidos pelos agentes do regime e sua postura firme e inquiridora ante casos de tortura e assassinatos estão registrados nas páginas do Estadão. As matérias publicadas revelam uma posição de enfrentamento diante dos crimes. As matérias censuradas revelam a real extensão de sua luta.Veja alguns exemplos:  

Página censurada de O Estado de S.Paulo -  25/5/1974

 

 Página publicada 

Entre as matérias mais cortadas pelos censores está a de 25/5/1974.O texto lembrava a fala de D.Paulo Evaristo Arns na comemoração do VIII Dia Mundial das Comunicações Sociais.Trechos em que o cardeal tratou sobre  “as dificuldades da censura e autocensura, comprovadamente contraproducentes quando se aplicam aos princípios da defesa da dignidade humana e do bem público” foram sumariamente reprovados.

O trecho sobre a libertação do padre Francisco Jentel, e o comentário de D.Paulo sobre o evento - “Esteve preso mais de uma no por subversão e, agora, viram que não é subversivo”- também foram suprimidos. No lugar foi publicado um trecho do poema Lembranças de Morrer de Álvares de Azevedo. 

Página censurada de O Estado de S.Paulo -  14/11/1973

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Na matéria de 14/11/1973, que tratava da ação pastoral da Igreja no Brasil, a parte que falava sobre “prisões, arbitrariedades e tortura” foi eliminada pelo censor. A parte sobre a “negação de liberdade de expressão e cerceamento dos meios de comunicações sociais” foi, supreendentemente, mantida, assim como o trecho que fala sobre o cancelamento da concessão à Rádio 9 de Julho da arquidiocese de São Paulo.O texto conta como os bispos solidarizavam-se com o cardeal Arns naquele momento em que se via “privado de um instrumento de comunicação tão enaltecido pelos papas”.  

Página censurada de O Estado de S.Paulo -  20/12/1973

 Página publicada 

Ainda sobre a Rádio 9 de Julho, a matéria original da edição de 20/12/1973 que falava da repercussão internacional do fechamento da emissora tinha seis parágrafos, na versão que chegou às bancas foram mantidos apenas quatro.  

A declaração do cardeal Marty, arcebispo de Paris, que disse que a Igreja de São Paulo encontrava-se “amordaçada” quando desejava “transmitir a mensagem de Cristo” foi cortada da versão publicada, assim como, toda a parte sobre o relatório analisado pelo Senado americano sobre o estado da liberdade político religiosa em 20 países, o Brasil entre eles. A lacuna criada com a retirada dos trechos censurados foi preenchida com o Canto Sexto,  de Os Lusíadas, de Luiz de Camões  


Página censurada de O Estado de S.Paulo -  28/8/1974

Página publicada  

Na matéria censurada de 28/8/1974, que falava sobre reunião de D.Paulo Evaristo Arns com o general Golbery de Couto e Silva, chefe da Casa Civil, a menção à atuação da Igreja na busca de esclarecimentos sobre o “desaparecimento de 20 presos políticos, as prisões, a censura à imprensa, a distribuição da renda e as terras ameaçadas dos colonos” foi totalmente cortada.

O Canto Primeiro, de Os Lusíadas, de Luiz de Camões foi publicado no espaço deixado pelo censor. 

Também em 1974 a declaração de D. Paulo Evaristo Arns que a tarefa de evangelização da Igreja era dificultada por “distorções em interpretar a ação evangelizadora no campo social” e pelo “ambiente de atemorização que asfixia as lideranças operárias, universitárias e de comunidade de base” foi inteiramente censurada na edição de 16/7/1974.   

Página censurada de O Estado de S.Paulo -  16/7/1974 

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O jornal também registrou a mobilização do cardela-arcebispo contra as prisões arbitrárias nos anos de chumbo. As matérias publicadas guardam resgistros de momentos marcantes da história recente, como a missa póstuma do jornalista Vladimir Herzog, morto no DOI-Codi de São Paulo. Em 31 de outubro de 1975, as palvaras de Arns que romperam o silêncio na catedral da Sé “ninguém toca impunemente no homem!” 

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