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Entrevista de Roberto Bolaños, o Chaves, em 2002

Criador do Chaves e do Chapolim morreu no México aos 85 anos

28 de novembro de 2014 | 19h 21
Acervo Estadão

A influência do ator, criador e produtor mexicano Roberto Gomes Bolaños para uma geração de brasileiros é a maior que a de milhares de artistas nacionais. Crianças, adolescentes e adultos que passaram anos assistindo Chaves e Chapolim Colorado depois do almoço e no fim da tarde no SBT incorporaram seus bordões recriados em dublagens abrasileiradas e não esquecem episódios da série que teima em ser reprisada e não sai do ar nunca da TV de Silvio Santos. Bolaños, morreu nesta sexta-feira, 28, aos 85 anos.

Em 2002, Roberto Bolaños foi entrevistado pelo repórter Franthiesco Ballerini, do Jornal da Tarde, na qual falou sobre o sucesso no Brasil e sobre seus personagens.  Leia a íntegra:

Bolaños, o poeta que veste o boné de Chaves

Por Franthiesco Ballerini (Jornal da Tarde, 8/9/2002

Pode-se dizer que é um programa precário, que os atores não chegam aos pés de um Tom Cavalcanti ou Chico Anysio, que o humor está longe de ter o refinamento do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ etc, etc. O que não se pode negar é que ‘Chaves’, programa humorístico exibido pelo SBT, é um verdadeiro fenômeno televisivo.

Há 21 anos praticamente ininterruptos no ar, o humorístico já desbancou a audiência de produções importantes. O feito mais recente foi o empate com os jornalísticos da Globo apresentados no horário do almoço. ‘Chaves’ chegou também a empatar com o ‘Mais Você’ durante o mês de estréia de Ana Maria Braga na Globo, com 11 pontos. Na penúltima semana de agosto, registrou

média de 13 pontos de ibope. “O Chaves é um ‘coringa’ em nossa grade de programação. Seja qual for o horário, os índices de audiência sempre superam nossas expectativas”, declara o diretor de programação do SBT, Mauro Lissoni.

O SBT chegou a comprar, em 1999, um novo pacote do programa – já que a maior parte dos episódios de ‘Chaves’ foi produzida até o final dos anos 70. A série ‘Clube do Chaves’, que foi apresentada pela emissora por dois meses aos sábados, trazia novos formatos e o tradicional personagem. Mas a novidade não emplacou.

Criador e intérprete do Chaves, o escritor e diretor Roberto Gómes Bolaños se surpreende até hoje com o sucesso do humorístico. Nascido na Cidade do México, Bolaños é casado com Florinda Meza (a dona Florinda) e tem 12 netos.

Aos 73 anos, está publicando um livro de poemas e escrevendo peças de teatro. Ele falou ao JT sobre seus projetos e o sucesso mundial do ‘Chaves’.

JT – O programa do Chaves vem mantendo boa audiência há 21 anos ininterruptos no Brasil. O que você acha disso?

Roberto Gómez Bolaños – Sinto uma grande alegria, mas também fico surpreso, pois a cada dia me assombro ao constatar que esse é o fruto do meu trabalho e do meu esforço de mais de 50 anos de carreira, primeiro como escritor e depois como ator, produtor e diretor.

Como você descreve o Chaves?

Um garoto de 8 anos, com muitas sardas na cara e pouca comida no estômago. Um menino terno, inocente, mas genioso. Seus esforços para ser um bom aluno são em vão, já que é superdistraído e mal-alimentado. Como não tem brinquedos, se diverte equilibrando vassouras. Sua terna resignação ante o infortúnio é capaz de despertar a compaixão dos mais duros corações. Um garoto cujo nome ninguém conhece, mas todos adoram.

Quantos programas já foram gravados e para onde foram exportados?

Já foram gravados mais de 2.500 programas e eu nem sei bem para quantos países ele foi vendido. Sei que foi transmitido em toda a América Latina, EUA, Canadá, Espanha, França, Inglaterra, até Angola.

Qual dos seus personagens faz mais sucesso no México?

Todos têm seu êxito, mas é evidente que Chaves e Chapolin são os que mais agradam o público.

Você conhece o Brasil? Que tipo de programa televisivo mais lhe agrada?

Fiz uma visita muito breve, faz alguns anos, e fiquei maravilhado com as belezas naturais e com a recepção calorosa da gente daí. Todo dia recebo cartas e e-mails de brasileiros, falando do sucesso do programa no Brasil. Sobre meus programas prediletos, adoro ver, quando posso, a Seleção

Brasileira jogar e assistir às novelas brasileiras, que são de ótima qualidade. Gosto de documentários sobre ciência e natureza, adoro o Discovery Channel, A&E Mundo, o History Channel etc.

Quais são suas atividades hoje na tevê?

No momento, minha produtora está em recesso, porque ‘Chaves’ acabou de ser retransmitido no México, com uma freqüência altíssima, de três a quatro vezes por dia. Eu sou do tipo que não gosta de saturar o público com minha imagem. Gosto que me vejam com agrado, não como chateação. Por enquanto, me dedico ao teatro e a um livro de poemas que está para ser publicado, além da minha autobiografia. Sempre fui escritor e hoje me dedico totalmente a esses projetos.

O que você faz nas suas horas vagas?

Gosto de jogar futebol e me encanta ficar com minha mulher, Florinda Meza (a dona Florinda do programa), pois é muito inteligente e culta. Também gosto de ir a Cancun para descansar.

Você tem netos? Como eles vêem o Chaves?

Eles me vêem como avô, mais do que como artista. A ponto de um deles, quando era pequeno, dizer à minha filha, um dia, depois de ver o ‘Chapolin’: “Mamãe... acabo de descobrir que o vovô ‘Rober’ é o Chapolin Colorado!” Ou seja, falamos pouco sobre os personagens, por isso não sei como eles o descreveriam.

Você ainda é muito abordado nas ruas do México e em outros países?

Demais. É uma benção para mim receber tantas mostras de carinho, é como sempre estar tomando vitaminas, pois o estímulo é o mesmo.

De onde surgiu a idéia do garoto órfão, do sanduíche de presunto, das roupas e do barril?

De ver todos os garotos pobres que existem no mundo e comprovar que as pessoas que os rodeiam constróem um pequeno mundo, digno de ser representado.

FOTOS HISTÓRICAS

Leila Diniz e amigas em 1967

Veja essa e outras imagens que marcaram época Leila Diniz e amigas em 1967

Foto: Ywane Yamazaki/Estadão

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