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Estadão mostrou disputas políticas que insuflaram a Revolta da Vacina

Jornal registrou as manobras da oposição e a crescente insatisfação popular com o governo

19 de fevereiro de 2017 | 0h 15
Liz Batista


    

Charge de 1904 mostra o povo sangrando com os braços furados pela lanceta que representa a lei da vacina obrigatória. Reprodução 

Quando a proclamação da República completava 15 anos milhares de pessoas tomaram as ruas da cidade do Rio de Janeiro. Não para festejar o aniversário do processo que fundou a democracia no Brasil, mas em atitude de violenta revolta contra o sistema. A Revolta da Vacina, um levante popular contra a lei da vacinação obrigatória, eclodiu na capital em 10 de novembro de 1904. O Estado cobriu, com riqueza de detalhes, o motim que durou seis dias e cinco noites e só cessou após a revogação da obrigatoriedade da vacina.

          O Estado de S. Paulo - 15/11/1906   

            











"A cidade apresenta um aspecto tristíssimo, de  verdadeira praça de guerra”, assim começa a  descrição da situação no Rio no jornal de 15 de  novembro de 1904. Nas edições dos meses que  antecederam a revolta, o jornal relatou as disputas de interesses políticos em torno da lei da vacina e mostrou o crescente  descontentamento da população com as  medidas sanitárias implementadas pelo médico Oswaldo Cruz, diretor-geral da Saúde Pública, e com a reforma urbanística conduzida pelo prefeito Pereira Passos, fatores que confluíram  para formar a onda de insatisfação que instaurou a  desordem nas ruas.    

Bonde é depredado durante Revolta daVacina, 1904. Reprodução

Epidemia e política. Assim como a peste e a febre amarela, a varíola era uma entre muitas das doenças que assolavam o Rio de Janeiro no início do século 20. Mas o aumento no número de casos de óbito pelo mal no primeiro semestre de 1904 - cerca de 4 mil pessoa morreram em uma população de 200 mil - fizeram da epidemia de varíola uma situação de emergência. O médico Oswaldo Cruz, indicado diretor-geral da Saúde Pública pelo presidente Rodrigues Alves, defendia que a vacinação obrigatória era o único meio de controlar a epidemia e afirmava que a imunização deveria ser realizada mesmo com o emprego de métodos autoritários.


         
                                       Caricatura de 1904 mostra o médico Oswaldo Cruz usando chicote contra o povo

A recusa popular à medida foi amplamente sentida, mesmo antes da aprovação da Lei nº 1261 de 31 de outubro de 1904, que tornava a vacinação obrigatória. As campanhas de imunização já eram usadas com sucesso em países da Europa, mas seu uso no Brasil era pequeno e a população ainda desconfiava de seus efeitos. O Estado de 18 de setembro de 1904 relatou que até agentes da Saúde Pública mantinham forte recusa em tomar a vacina: “O sr. dr. Oswaldo Cruz, director da Saúde Pública, ordenou que fossem submetidos a vacinação todos os empregados da Saúde Pública, em número de trezentos. Parte dos empregados assumiu attitude hostil, declarando não se submetter à vaccinação. Á vista disso, o dr. Oswaldo Cruz pediu providências à polícia, que logo compareceu ao local. A maioria dos empregados já se havia retirado, quando chegou a força. Poucos se submetteram à vaccinação.”, contava a publicação.


Cientes da impopularidade de Oswaldo Cruz e de suas medidas, a oposição aproveitava para ganhar terreno na Câmara e no Senado. A eficácia da imunização era questionada em discursos inflamados que lembravam os cidadãos da ingerência do Estado ao impor a vacinação. No jornal Correio da Manhã os agentes de Saúde Pública eram chamados de forças do Santo Officio de Tortura Pública”, numa clara alusão ao período da Inquisição. Na mesma notícia sobre a lei da vacinação o texto terminava dizendo que “o povo do Rio de Janeiro, cuja provada mansidão anima a que pratiquem contra elle todas as violencias e lhe inflijam todas as humilhações, é que terá de experimentar as novas torturas consignadas no capitulio agora addicionado maldito código, que o fanatismo imperioso do sr. Oswaldo Cruz impôz à insensensibilidade do sr. Rodrigues Alves.

No Senado, Barata Ribeiro discursava contra o governo e inflamava a revolta na população: “Ao que parece, o governo tem o proposito de alimentar a epidemia desprezando a prophylaxia afim de obrigar o povo a estender o braço à lanceta homicida. Queria que o sr. Rodrigues Alves saísse da mudez de seu palacio e viesse para o meio da população escutar os seus lamentos. Elle coraria tambem vendo tanta desgraça(...)”, como mostrou o Estado de 28 de setembro de 1904. A solução proposta pelo senador, que também era médico, era a abertura de mais leis de crédito para construção de hospitais.  

O Estado de S.Paulo -  18/9/1904 e 28/9/1904

Durante o aguerrido debate sobre a lei da vacina o Estado publicou argumentos favoráveis à vacinação e trouxe relatos dos bons efeitos das campanhas de imunização na França e na Alemanha que por esse método "conseguiu extinguir em todo os eu território o mal que nelle irrompera violento.” 


Em matéria opinativa publicada na capa do jornal de 17 de julho de 1904, tratou da situação de penúria em que se encontrava a Saúde no Rio e criticou os políticos que se opunham à vacina: “ (…) A variola graça de modo pavoroso - o hospital S.Sebastião regorgita, não  há mais um leito vago e os carros da Assistencia não param recolhendo nos bairros pobres as victimas da terrivel molestia. O povo, aterrado, dispôe-se à vaccina, corre aos postos medicos para immunisar-se e, justamente quando se vae impondo, pela convicção, a prophylaxia que tem provado tão vantajosamente em todo o mundo, homens de prestígio, como os drs. Barbosa Lima, na Câmara, e Barata Ribeiro no Senado, insurgem-se contra a medida salvadora.“Cada um tem a liberdade de morrer e como quizer” parece que este é o aphorismo que serve de divisa aos que combatem a vaccina, aphorismo que tira ao governo o seu caracter principal, que é o de “defensor do povo”(...)”  


Batalha campal. No dia 10 de novembro o jornal A Notícia publicou a íntegra da lei de vacinação obrigatória, deflagrando uma reação em cadeia. Os termos impositivos no texto foram sentidos pela população como um golpe no que lhes restava de dignidade. 

O Estado noticiou todo o conflito. Correspondentes e telegramas falavam sobre os choques entre populares e as forças públicas, dando notícia sobre delegacias bombardeadas e cercadas pela multidão enfurecida. Bondes foram incendiados, barricadas foram erguidas nas ruas, casas de comércio foram depredadas, tudo diante do despreparo da polícia que reagiu de forma desmedida após receber “ordem severa de fazer fogo contra os indivíduos” que atentassem contra bens ou ordem pública.

 A situação se agravou quando militares que conspiravam contra o governo de Rodrigues Alves aproveitaram a situação de anarquia nas ruas e se sublerevaram na Escola Militar da Praia Vermelha. O Rio viveu dias de batalha campal e teve estado de sítio declarado. A cidade só retornou à normalidade após a queda da lei da vacinação obrigatória. Trinta mortos,110 feridos e mais de 1500 presos e deportados constam nos números oficiais.

A Revolta da Vacina  é considerada uma das primeiras iniciativas de luta pelos direitos civis do Brasil republicano. Capítulo importante na formação da cidadania, o episódio revela tensões históricas profundas e a latente insatisfação popular num período em que a jovem república buscava se consolidar - o Brasil era governado pelo seu 5º presidente, Rodrigues Alves. E ele era apenas o 3º eleito pelo voto direto. O sentimento de descrença e desconfiança dos cidadãos em relação aos políticos e autoridades públicas estava presentes no cerne da rebelião. 

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