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Fotos que salvaram uma vida

Vencedor do Prêmio Esso, fotógrafo Epitacio Pessoa se emociona com trabalho de 2010: 'maior prêmio foi salvar a vida dele'

21 de agosto de 2020 | 15h 33
Edmundo Leite - Acervo Estadão

Adriano Carlos Gonçalves da Silva escapa de algozes em estrada de Lorena, 16/8/2010. 

Na manhã de 16 de agosto de 2010, um carro da reportagem do Estadão passava por uma estradinha de terra em Lorena, no interior de São Paulo. Dentro dele, o motorista Julio dos Santos, o repórter José Maria Tomazela e o fotógrafo Epitacio Pessoa seguiam naquela segunda-feira em busca de informações sobre a poluição do Rio Paraíba do Sul. Trabalho de fôlego para uma reportagem especial programada para ser publicada somente no mês seguinte. "Matéria fria", no jargão jornalístico, em contraponto às "quentes", o noticário urgente do dia.

Às 10h58, Pita, como é conhecido o repórter fotógrafico, viu um grupo de rapazes que pareciam estar brincando na estrada. Velho de guerra na profissão, com a máquina sempre à mão engatilhada para captar cenas do cotidiano - mesmo as que não são do assunto da pauta programada - focalizou e começou a fotografar pela janela do banco de trás com o carro em movimento.

Nos microsegundos entre os primeiros disparos, percebeu que outra coisa estava acontecendo e pediu a Julio que parasse o veículo. Sem tirar o dedo do disparador, desceu e fotografou aquela que seria uma das sequências mais impressionantes de sua trajetória no jornalismo. E do próprio jornalismo.

Ao avistar o carro da reportagem, um dos rapazes começou a gritar por socorro. Em seguida, livrou-se dos outros dois rapazes e, com as mãos amarradas nas costas, correu em direção ao carro do jornal implorando por ajuda. Estava salvo. Os outros dois pretendiam matá-lo e jogá-lo no rio por causa de uma falsa acusação de furto, contou aos jornalistas, que tiveram que cortar o cordão que prendia as mãos de Adriano Carlos Gonçalves da Silva, o nome do jovem, então com 19 anos.

Além de salvar a vida de uma pessoa, as fotografias publicadas na capa do jornal do dia seguinte sob o título "Violência abortada", transformariam a vida de outra. No ano seguinte, Epitacio Pessoa entraria para o panteão dos grandes fotógrafos do jornalismo brasileiro ao ter o seu trabalho naquela estradinha de Lorena escolhido como o vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo 2011, a maior honraria profissional do setor. Um Oscar do jornalismo.

[Abra a galeria de fotos em outra janela]

Leia o depoimento do fotógrafo ao Acervo Estadão e relembre a história nas páginas originais do jornal.

O maior prêmio

Epitacio Pessoa, fotógrafo

"Eu estava indo com o Tomazela pra fazer uma pauta sobre sustentabilidade no Rio Paraíba do Sul. Era uma pauta sobre meio ambiente, mostrando a degradação do rio. E aí eu com o Tomazela e o motorista Julio, nós dissemos assim, vamos adentrar ao rio, nas margens do rio, para mostrar o assoreamento por causa da areia que já tava invadindo o rio. E quando eu tava indo dentro do carro... eu sempre falei que o repórter fotográfico tem que andar sempre em condição de disparo, sempre em CD, pronto pra qualquer foto.

Eu estava com uma 70/200. E quando eu vi essa cena eu achei que fosse uma brincadeira de jovens de sítio. Só que quando eu coloquei a lente, que eu aproximei o zoom eu falei para o carro porque essa cena aqui não é uma bricandeira. Aí eu desci e continuei a registrar a cena. E aí os bandidos, os algozes que estavam levando o Adriano para matar e jogar o corpo dele no rio, falaram assim: 'solta ele que a imprensa chegou. Sujou. Solta, solta ele que não dá para fazer mais nada'.

Segundo o Adriano, eles disseram para ele assim: 'Você mergulha bem? Porque o último que nós jogamos aqui não voltou.' Ele já estava amarrado, com um cadarço, com as mãos para trás, já tinha apanhado. Estavam levando ele pra matar mesmo, iam  jogar ele no rio. Foi quando apareceu o carro do Estadão comigo, com o Tomazela e com o Julio. E aí a gente conseguiu, além de fazer essa sequência de fotos, fomos premiados por ter conseguido salvar a vida do Adriano, de ter chegado naquele local lá.

Imagina você no meio do mato, do nada, aparecer um carro escrito imprensa, e o jornalista, e eu, e o Tomazela e o Julio, e a gente fazer essa sequência de fotos e conseguir salvar a vida dele. Assim, foi pra mim foi o maior prêmio foi salvar a vida dele. O maior prêmio. Mas também foi um baita prêmio pelo fato de além de Deus já ter me dado o dom de ser fotógrafo, ainda me usou pra fazer uma foto que fosse salvar uma vida. E que também me deu o prêmio Esso.

O que mais eu posso esperar agora em termos de fotografia? Claro que eu quero continuar sempre fazendo belas fotos. Tomara que eu não precise mais salvar vidas dessa forma. Mas que foi para mim um grande prêmio foi. Foi emocionante."

O fotógrafo Epitacio Pessoa com uma das fotos com as quais ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo

Adriano Carlos Gonçalves da Silva escapa de algozes em estrada de Lorena, 16/8/2010. 

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# Capa com cartaz do filme King Kong em 1933

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