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Gol de placa: conheça a história do gol de Pelé que originou a expressão

Jogada magistral do craque contra o Fluminense aconteceu em 5 de março de 1961 no Maracanã

05 de março de 2021 | 4h 31
Acervo - Estadão

O gol de placa de Pelé no jornal de 7/3/1961

gol de placa de Pelé no jornal de 7/3/1961

Domingo, 5 de março de 1961. Fluminense e Santos jogam no Maracanã pelo Torneio Rio-São Paulo. A equipe santista vencia por um a zero [gol de Pelé aos três minutos], quando o craque recebe a bola ainda em sua intermediária aos 41 minutos e dispara em direção aos adversários, driblando sete jogadores. Quando a jogada terminou com a bola no gol do Fluminense, as duas torcidas, extasiadas com a jogada, aplaudiram em pé aquele que é considerado um dos mais belos gols do futebol: o gol de placa de Pelé.

O Santos venceria o jogo por 3 a 1, com mais um gol de Pepe para o Santos e outro de Valdo para o Fluminense no segundo tempo. O placar, no entanto, não importava. O que ficou para a história foi o magnífico gol de Pelé, como escreveu o Estadão sobre o arremate da jogada:  "Pelé marca o segundo ponto do Santos, após dominar Pinheiro, Altair, Edmilson e Clóvis. Castilho ainda tentou cobrir a visão do avante santista, mas o chute foi tão perfeito quanto a jogada que o propiciou".

Poema - No extinto Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, dirigido por Mario Filho, irmão do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, que assistia ao jogo e tem participação na história da placa para o gol, sob a foto da bola na rede e o goleiro caído na capa, lia-se : "Êste goal de Pelé valeu o espetáculo e três vezes mais o preço do ingresso". Na segunda página, uma frase do jornalista Teixeira Heizer reproduzida na coluna Som e Imagem descrevia a jogada assim: "O segundo goal foi um poema. Apanhando a bola na sua área, veio caminhando como quis e quando quis - e só resolveu chutar porque se não chutasse não teria graça. E só esse tento pagaria qualquer preço majorado no Maracanã." 

Ilustração de Baptistão recria a jogada de Pelé

Ilustração de Baptistão recria a jogada de Pelé

Em 2001, o repórter Wagner Vilaron, do Estadão, entrevistou  jogadores que participaram da partida e o jornalista Joelmir Beting [1936-2012], que também estava no Maracanã e criou a placa em homenagem a Pelé, para contar como foi o gol que entrou para a História. A reportagem ainda contou com uma ilustração do artista Baptistão para recriar a jogada e a sequência de quatro fotos do gol que acompanhava uma placa que substituiu a original no Maracanã naquela época.

 “É o tipo de lance que, para quem gosta de futebol, deve ser admirado, mesmo que seja do time adversário”, observou o ex-meia santista Mengálvio, um dos 22 jogadores que disputaram a histórica partidaComo apenas a conclusão foi registrada em vídeo, há divergências de relatos sobre toda a jogada que originou o gol.  Joelmir Beting assegurava que Pelé driblou alguns jogadores por mais de uma vez. Outros, caso de Mengálvio, dizem que o que houve foi destreza na proteção da bola, e não exatamente dribles. “Ele partiu com a bola dominada e, com o corpo, a protegia da marcação. Até que chegou ao gol”.

Até os adversários reconheciam a beleza da jogada de Pelé. “Foi uma jogada que mereceu mesmo uma placa, já que fazer um gol naquela defesa não era missão muito fácil”, observou o ex-zagueiro Jair Marinho em 2001.  Mostrando-se dono de memória privilegiada, ele nominou os companheiros que o Atleta do Século deixou para trás. O primeiro da lista foi o meia Edmílson, encarregado da marcação de Pelé. Na seqüência, vieram os meias de ligação Paulinho e Clóvis, o lateral-esquerdo Altair e o zagueiro Pinheiro. “O Pelé me conhecia e quando cheguei na cobertura ele não me driblou. Tocou no canto do Castilho”, garantiu.

Para Altair, um dos driblados, a forma como as equipes jogavam na época possibilitou a realização e conclusão do gol de placa. Segundo ele, não existia a filosofia de interromper a jogada após o primeiro drible, como acontece no futebol atual. “Hoje em dia, fazer uma jogada como aquela seria quase impossível”, afirmou.

Primeira das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Primeira das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Segunda das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Segunda das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Terceira das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Terceira das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Quarta das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

Quarta das quatro fotos do gol de placa de Pelé que estavam expostas no Maracanã em 2001.

A ideia da placa - Por muito tempo, o jornalista Joelmir Beting foi erroneamente citado como o autor da expressão “gol de placa”. Ele próprio esclareceu o assunto na reportagem de 2001. “Na realidade, não criei essa frase. O que aconteceu foi que tive a idéia de fazer uma placa em alusão ao gol marcado pelo Pelé”, explicou. “Depois disso, a cada belo gol, os locutores esportivos passavam a dizer ‘esse também merece uma placa’, criando-se, assim, a famosa expressão.”

O jornalista na época trabalhava no diário esportivo paulista O Esporte, como repórter responsável pela cobertura do Santos. Na época, o Torneio Rio-São Paulo tinha importância e representatividade maiores. Por isso, ele foi escalado para ir ao Rio acompanhar a partida entre Fluminense e Santos. Além de escrever sobre o jogo, o jovem Joelmir devia mencionar em seu texto a forma como o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues comportava-se na tribuna de imprensa. A estratégia? Sentar-se ao lado do ídolo. “Ele também me admirava e via em mim uma espécie de discípulo”.

Em meio aos aplausos dos torcedores que lotavam o Maracanã, Beting contou a Vilaron que ouviu um lamento solitário. “Essa obra vai ficar sem memória”, bradava Nelson Rodrigues, indignado. “Onde está o Canal 100?”, perguntava a todos, referindo-se à produtora que fazia sucesso gravando imagens dos jogos e exibindo-as nas salas de cinema antes dos filmes. O Canal 100 estava lá, mas como era costume da produção, registrava-se na maioria das vezes apenas as cenas que aconteciam dentro da área. “Mas, naquele caso, isso não era suficiente, pois a virtude da jogada foi a forma como ela foi construída, os dribles. Por isso o Nelson insistia naquela história de que a obra iria ficar sem memória”, contou Joelmir.

O mais bonito da história - A frase do dramaturgo acompanhou o jovem jornalista por dois dias. Até que encontrou a solução para eternizar a jogada: uma placa de bronze que registraria o fato. Rapidamente levou a idéia ao editor de O Esporte, Walter Lacerda, que a aprovou prontamente, assegurando que o jornal arcaria com as despesas.  Joelmir, então, providenciou a confecção da peça com a inscrição "Neste campo no dia  5-3-1961 Pelé marcou o tento mais bonito da história do Maracanã", que ficaria exposta no saguão de entrada do Maracanã.

A placa seria descerrada pelo próprio Pelé no domingo seguinte, quando o Santos voltaria ao estádio para enfrentar o Vasco.  “Viajei com ela na minha mala. Chegando lá, providenciamos dois pregos, uma toalha de banho, pois não tínhamos aquela cortininha, e barbante. Assim foi feita a cerimônia”, recordou, acrescentando que que não teve as despesas reembolsadas pelo jornal. Em 2001, quando a reportagem foi publicada, a placa original estava recolhida no acervo do extinto Museu do Futebol no Maracanã. Em seu lugar, junto a quatro fotos do gol, uma placa descerrada por Pelé nos 50 anos do estádio a substituía. 

Anos depois, Pelé agradeceu a homenagem presenteando o jornalista com uma placa de acrílico com a seguinte inscrição: “Ao Joelmir Beting, o idealizador da placa do Gol de Placa, o reconhecimento de quem fez o gol. Minha gratidão por essa homenagem eterna... Pelé”.

Placa em homenagem ao gol de Pelé que substituía a original no Maracanã em 2001

Placa em homenagem ao gol de Pelé que substituía a original no Maracanã em 2001

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