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Julio Abe levou o museu para as ruas

Arquiteto, morto em 21 de novembro, revolucionou a relação patrimônio histórico, museu e público

21 de dezembro de 2020 | 12h 37
Beatriz Helena Silva - Estadão Acervo

No dia 21 de novembro de 2020, faleceu Julio Abe Wakahara vítima de covid-19. Abe foi um profissional que revolucionou a relação entre patrimônio histórico, museu e público. Arquiteto, museólogo e professor, Julio Abe tirou o conceito de museu entre quatro paredes e o levou para a rua. Entre suas criações estão o Museu Histórico da Imagem Fotográfica de São Paulo (1975) e o Museu de Rua (1977). Julio Abe percorreu um longo caminho em sua atuação profissional. Caminho marcado pela interação com outros campos do conhecimento e fazeres, principalmente na área da Museologia, do patrimônio histórico e das manifestações culturais.

Julio Abe Wakahara, em 2009

Julio Abe Wakahara, em 2009

Embora não tivesse formação e experiência em museus quando iniciou seu trabalho na Divisão de Iconografia e Museus na década de 1970, sendo seu único funcionário e deparando-se com um museu que ainda não existia de fato, Julio Abe não se restringiu às possibilidades conhecidas sobre o que deveria ser um museu. Segundo ele, “Não sou teórico, não sou acadêmico. Eu deixei a Universidade para não ser doutor. Então, eu não sou doutor. Sou no máximo mestre. E a minha forma de trabalhar é um pouco diferente da das outras pessoas, porque eu faço um trabalho interdisciplinar. E não é de hoje, é uma coisa antiga.” 

Assim, depois da criação do Museu Histórico da Imagem Fotográfica de São Paulo, Julio Abe trabalhou no projeto e implantação do Museu de Rua, o primeiro inaugurado em 1977. Ele trouxe contribuições inovadoras para o trabalho nos museus. Abe, colocou em prática a ideia de museu sem muros e exposições abertas aos públicos que geralmente não visitavam os museus tradicionais. Em 28 de outubro de 1976, o Jornal da Tarde anunciava o futuro do Museu Histórico da Imagem Fotográfica informando que o museu iria “para o lugar onde deveria realmente ficar: as ruas da cidade.” Foi no espaço público das ruas, nas calçadas e praças da cidade de São Paulo, que a iniciativa do Museu de Rua encontrou um lugar para ser visto por todos os que passavam, apressados ou não, durante a caminhada cotidiana pela cidade. O Museu de Rua funcionou de 1977 a 1981.

Início da Expedição São Paulo 450 em Mogi das Cruzes realizada em 1985. Julio Abe é o terceiro da direta para a esquerda

Início da Expedição São Paulo 450 em Mogi das Cruzes realizada em 1985. Julio Abe é o terceiro da direta para a esquerda

Em sintonia com as discussões do campo da Museologia após os anos 60, que criticavam o papel conservador dos museus tradicionais e seu distanciamento das comunidades com as quais deveriam colaborar, o Museu de Rua extrapolava os muros, ampliava a divulgação de um rico acervo fotográfico da cidade de São Paulo, e permitia ao morador, transeunte e o visitante olhar para o passado, notar o presente e especular sobre as transformações urbanas que ainda fariam parte da história a ser construída.

Julio Abe dizia que começou na vida de museus como por acaso, levado por seu trabalho com o patrimônio histórico cultural. No entanto, suas proposições foram ao encontro das ideias necessárias para renovar a função dos museus junto à sociedade. “Eu nem sabia o que era Museologia, mas eu trabalhava na área de patrimônio, todo lugar que eu via, eu queria saber o que era aquilo. O que o museólogo faz? Ele coleta, ele analisa o objeto, dá significado e expõe para o grande público. Então é um processo de procura de significados e formas de comunicação.”Com o tempo, após alguns projetos no Centro de São Paulo, sobre o Vale do Anhangabaú, Viaduto do Chá e Praça da Sé, o projeto do Museu de Rua foi além de se deslocar, aproximando-se ainda mais das pessoas com as quais dialogava. Desse modo, o projeto do Museu de Rua do Bixiga, em 1979, contou com depoimentos e coleções fotográficas fornecidas pelos próprios moradores, fortalecendo o vínculo de reconhecimento entre a história do lugar, o espaço físico e a memória de quem o vivenciou todos os dias. Em depoimento ao Jornal da Tarde de 13 de dezembro de 1979, Abe relatou: “O museu de Rua é um processo de conhecimento da cidade. No projeto Bixiga ouvimos mais de 30 moradores em mais de 25 fitas gravadas para reconstruir a evolução urbana do bairro.” Posteriormente, os Museus de Rua foram reconhecidos como parte da trajetória do Museu da Cidade de São Paulo (1993) e a iniciativa foi reeditada durante a Jornada do Patrimônio de 2019, focando-se no Vale do Anhangabaú.

Seus projetos de museus foram replicados e serviram de inspiração para outros modelos que viam no território, no percurso e no espaço público um grande potencial de comunicação, conscientização e empatia entre pessoas e a realidade ao redor. A transformação urbana e a passagem do tempo eram motores para dinamizar os museus e o patrimônio da cidade.Em 1981, Júlio Abe Wakahara participou da criação do Museu Histórico do Instituto Butantan, colaborando com a comunicação visual, e em 1991 seu escritório esteve presente no projeto do Museu de Rua do Instituto Butantan, em comemoração aos 90 anos da instituição. Em 1991, o escritório de Julio Abe também foi responsável pela implementação da ideia do museu-percurso como modelo para o Museu da Cidade de Salto: a cidade em si assumindo papel de museu ao ar livre, onde cada lugar selecionado se relacionaria com um tema importante para a configuração da cidade, fosse em relação ao meio ambiente, ao mundo do trabalho e às manifestações culturais.

Julio Abe Wakahara também trabalhou em projetos de Museus de Bairro, sendo os de Cambuci e Pinheiros, ambos de 1999, alguns exemplares. Eram exposições breves, que tinham o objetivo de se tornarem projetos de museus acolhidos pela comunidade. A participação popular para a contação das histórias e coleta dos acervos era fundamental. A busca por compreender a cidade, torná-la patrimônio de interesse de seus habitantes e proporcionar a reflexão sobre seus conflitos e vivências, também levou Julio Abe Wakahara a percorrer o território da metrópole com uma equipe de profissionais multidisciplinares na Expedição São Paulo de 1985 que percorreu toda a cidade em sete dias. A síntese dessa experiência ficou registrada nas páginas do Jornal da Tarde, que publicou os relatos da expedição entre 25 a 30 de novembro daquele ano.

Em 2004 o Museu da Cidade de São Paulo retomou a iniciativa expedicionária com a Expedição São Paulo 450 anos, e em texto publicado para refletir essa experiência, Julio Abe relembrou da empreitada anterior de 1985, quando o Jornal da Tarde desempenhou papel decisivo no registro histórico daquele evento: “A Expedição precisava expressar a realidade da metrópole e de um meio de comunicação de massa que levasse suas imagens até a população. A solução veio por meio de parceria com o Jornal da Tarde que, desde o primeiro momento, não só adotou o projeto como se engajou à Expedição [...]. As 24 páginas referentes à Expedição, publicadas no Jornal da Tarde, passaram a integrar coleções de pesquisadores, estudantes, professores e a ocupar os murais de escolas, faculdades e bibliotecas. Como no Museu de Rua, o meio de comunicação escolhido - agora a mídia impressa - demonstrava a eficácia de um novo suporte museológico: o jornal diário.”

Seu trabalho demonstra que o caminho percorrido pode carregar significados capazes de movimentar a ação das pessoas sobre o mundo, seja se detendo um pouco para observar e perceber o que está ao redor, imaginando as mudanças possíveis, tanto as que ocorreram no passado quanto as que ainda acontecerão. E nesse diálogo com o patrimônio e os museus, podemos perguntar: O que guardamos? O que escolhemos preservar? E o que precisamos nos lembrar deixando à vista de toda sociedade?

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