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Marcello Mastroianni, para rever e se apaixonar

Astro italiano que personificou uma geração do cinema morreu há 20 anos em Paris

19 de dezembro de 2016 | 14h 00
Cristal da Rocha

Mastroianni no filme 'A Cidade das Mulheres' (1980). Foto: Opera Film-Gaumont/Divulgação 

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Existem alguns personagens na história da arte que são capazes de personificar sonhos e anseios de uma geração. Este é o caso de Marcello Mastroianni, ator italiano que morreu há 20 anos de câncer. Mastroianni diz em seu documentário, filmado por sua última mulher, que as pessoas deveriam viver e morrer como quisessem. E foi assim que o artista viveu seus 72 anos sobre a terra, filmando o que lhe interessava e vivendo histórias pessoais que muitas vezes caminhavam paralelo com seus romances no cinema. Embora lembrado por alguns como um “latin lover” do cinema, ele não considerava-se nem sentia-se como galã. Transitou por mais de 150 personagens em toda sua carreira no cinema e teatro onde interpretou os mais diversos tipos de homens.

A respeito do estigma de homem belo que o perseguia, Marcello disse em 1982 que não se considerava interessante fisicamente: “Como posso ser bonito com estes dentes pequenos, o nariz pontudo? É o clima dos filmes que faço que dá essa imagem, leva as pessoas para fora da realidade. E, para mim, a beleza é algo mais profundo do que a imagem. Ela vem de dentro, das qualidades, do espírito. Não concordo com essa concepção de beleza clássica.”

Talvez ele estivesse se referindo ao clima de filmes como La Dolce Vita, película de Federico Fellini que despontou o astro italiano ao sucesso. É nele que acontece a clássica cena em que ele dança com a deslumbrante Anita Ekberg na Fontana Di Trevi em Roma. A esta altura estava com 36 anos e carregava consigo farto currículo de filmes. Mas foi a apartir deste momento que Mastroianni entrou definitivamente no imaginário de homens e mulheres e por lá habita até hoje. As gerações vão se atualizando mas ele permanece como a personificação de, como ele mesmo diz, alguém que leva as pessoas para fora de sua realidade.

Marcello caiu nas graças de grandes cineastas de seu tempo e atuou em alguns dos filmes que hoje são considerados obras-primas da arte cinematográfica. Com La Dolce Vita estabeleceu-se uma relação de trabalho bastante íntima com o cineasta Federico Fellini, que fez dele seu alter ego em cena. Como escreveu Luiz Zanin Oricchio em 1996 nas páginas do Caderno 2, Marcello “Emprestava seu corpo às inquietações do diretor”. Mastroianni e Fellini repetiram o sucesso da parceria em 1963 com outro clássico “8 1/2” onde o ator seguia dando um rosto e uma voz aos anseios do diretor. Ao todo fizeram cinco filmes juntos.

Assim como o ator formou com Fellini uma dupla que criou mitos no cinema, foi ao lado de Sophia Loren que Mastroianni desenvolveu uma parceria de glamour, beleza, alguns filmes e belas cenas. Os destaques vão para “Casamento a Italiana” e “Ontem, Hoje e Amanhã” onde a atriz protagoniza uma cena sensual de striptease para Marcello que uivava como lobo a cada peça que roupa que atriz despia. Três décadas depois, a cena clássica foi recriada com os dois atores já em idade avançada, no filme Prêt-à-Porter, de Robert Altman.

No começo da década de 80,  Mastioiani esteve no Brasil para interpretar o papel de Nacib, do livro Gabriela de Jorge Amado que ganharia vida ao lado de Sônia Braga e foi filmado em Paraty. O ator precisou aprender português para o filme e após umas série de intercorrências como o visto irregular do ator, que estava como turista e portanto não poderia exercer trabalho remunerado, as filmagens foram concluídas com sucesso. Os atores trouxeram agito a região do litoral sul do Rio de Janeiro como diz o título da matéria do Estadão em 1982 : “Gabriela, apesar dos problemas uma experiência que agita Paraty”.

Apesar da diversidade de tipos humanos que interpretou, havia um desejo que ele não conseguiu concretizar: o de interpretar um Tarzã idoso. A revelação foi feita um mês antes de falecer, quando o  ator concedeu entrevista a repórter especial do Caderno 2 Maria Andrea Muncini: “adoraria fazer o papel de Tarzã. Um Tarzã já velho, sozinho na floresta, abandonado por todos, pobre, com a sua macaquinha Chita, também velhinha, com pelos brancos. Me agrada a ideia de fazer o papel de Tarzã, a história de um herói que hoje não interessa mais a ninguém, porque Tarzã era um homem bom, amava a natureza, os animais.”

A vida e carreira de Marcello Mastroianni foram um misto de sonho e realidade, onde muitas vezes seus personagens que se apresentavam como homens frágeis, sensíveis e dissimulados misturavam-se a sua vida, seu perfil misteriooso e irresistível. Sempre o foi até o fim de sua vida, onde a idade não diminuiu seu poder de sedução através da arte de sua interpretação. Charme a parte, dificilmente um ator se mantém em alta a carreira toda se, além do véu da beleza que encobre o talento, sua personalidade não for forte e seu espírito ousado.

Soube aproveitar cada dia tendo a certeza de onde terminava o sonho e onde retornava a sua realidade. O jornalista Luiz Zanin Oricchio escreveu na época de sua morte que Marcello “Trabalhava como louco e não escolhia com rigor excessivo seus papéis". "Como seu amigo Fellini, não se levava muito a sério, o que é ótimo para a saúde mental. Não se pode lamentar sua morte. Marcello Mastroianni bebeu e fumou à vontade. Namorou as mulheres mais deslumbrantes do seu tempo. Participou, como protagonista, de algumas das raras obras-primas do século. Poucas vidas foram tão bem vividas. Salve e adeus.”

Marcello dizia que “cada filme é como uma nova aventura, como se fosse um novo caso de amor”. Portanto, é possível apaixonar-se novamente por Mastroianni toda vez que um filme seu é exibido, mesmo que o seja pela milésima vez.

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