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Museus europeus sofrem com a superlotação

Instituições debatem como manter o equilíbrio entre acessibilidade e preservação das obras

30 de julho de 2014 | 16h 00
Rachel Donadio*
PARIS - Numa tarde nublada deste mês, a fila para entrar no Louvre se esticava ao redor da pirâmide da entrada, por todo o pátio e além. Dentro do museu, uma multidão, mais de uma dúzia olhavam profundamente para a Mona Lisa, a maioria tirava fotos com seus celulares e selfies. Próximo à estátua grega conhecida como Vitória de Samotrácia ou Nice de Samotrácia, Jean-Michel Borda, vindo de Madrid, fez uma pausa enquanto era esmagado pela multidão."É como o Metrô de manhã cedo", disse.

Admirar obras de arte pode ser um rito cultural de passagem que faz bem à alma, mas a crescente visitação transformaram muitos museus em espaços superlotados que parecem saunas, forçando instituições a debater sobre como manter o equilíbrio entre acessibilidade e a preservação das obras.

 
Aglomeração para ver "Mona Lisa" no Louvre, o mais movimentado museu de arte do mundo. Guia Besana / The New York Times


Há alguns anos, os museus vem tomado medidas para lidar com as aglomerações. A maioria oferece entradas com tempo cronometrado. Outros tem estendido o horário de visitação. Para proteger suas obras, muitos investiram em novos sistemas de ar condicionado. Mesmo assim, muitos críticos dizem que tais medidas não bastam.

No ano passado, o Museu do Vaticano, teve um recorde de 5,5 milhões de visitantes. Este ano, graças a popularidade do novo papa Francisco, espera que este número aumente para 6 milhões. O Vaticano está instalando um novo sistema de climatização na Capela Sistina para ajudar a preservar os afrescos de Michelangelo da umidade gerada pela presença de 2 mil pessoas que lotam o espaço a qualquer hora do dia, recentemente o número chega a 22 mil pessoas por dia. O Vaticano espera concluir a obra até outubro.

Em entrevista pelo telefone, Antonio Paolucci, o diretor dos museus do Vaticano, falou que sua instituição está num beco sem saída. Para preservar os afrescos não deveria ser permitido um aumento da visitação, ele disse, no entanto, “a Capela Sistina tem um valor simbólico e religioso para os católicos e não podemos definir um limite.

Geralmente os museus não gostam de determinar um limite para as visitações. No Museu Hermitage, que teve 3,1 milhões de visitas no ano passado, a única regra que limita o número de visitantes são “os limites físicos do próprio espaço, ou o número de cabides que a chapelaria comporta no inverno”, declarou Nina V. Silanteva, a chefe do departamento de serviços de visitação.

Silanteva disse que o objetivo é tornar o museu acessível ao maior número de pessoas possível, mas, admitiu que as lotações e aglomerações representam um problema. "Um número colossal de espectadores ao memso tempo não é bom para a arte, e pode ser incrivelmente desconfortável para aqueles que vêm para ver a arte", disse ela. "Felizmente nada de ruim aconteceu, e Deus nos salvou de qualquer contratempos", completou.

Às vezes, acidentes, de fato, acontecem. Por causa das multidões, uma estátua romana de Vênus do Museu Britânico, conhecida como Townley Venus e datada entre os século 1 e 2 , teve seus dedos quebrados algumas vezes nos últimos anos.



Fila para entrar no Museu do Louvre. França, Paris, 9/7/2014. Foto: Guia Besana / The New York Times



Até mesmo quando a arte está segura, a experiência de uma visitação pode se tornar cansativa. Patricia Rucidlo, uma guia turística da Context Travel em Florença, conta que visitar a Galeria Uffizi, famosa por ter em seu acervo o Davi de Michelangelo, se tornou um “pesadelo” este ano, pois foi permitido aos visitantes tirar fotografias. “As pessoas agora se amontoam-se ao redor dos quadros, pisam em quem estiver na frente, empurram, acotovelam-se, tiram uma foto e passam rapidamente para a próxima pintura, sem sequer olhar para o quadro anterior”, escreveu ela em uma mensagem de email.

As filas fora da Galeria Uffizi, em Florença, que teve 1,9 milhões de visitantes no ano passado, são famosas por seu comprimento. O pátio do local está cheio de pessoas trocando entradas cronometradas. (Uma empresa privada, que fica com 14% do preço dos ingressos é responsáveis pela distribuição das entradas). O museu diz que restringe o número de visitações até 980 pessoas por vez, para atender às normas contra de incêndio.

Mas, no começo deste ano, funcionários da instituição alertaram que o museu estaria deixando passar um número de visitantes bem maior que o permitido colocando as obras de arte em risco. Tomaso Montanari, historiador de arte em Florença, professor na Universidade Federico II em Nápoles, tem sido um forte crítico da lotação no Uffizi, considerada menor que em outros grandes museus. “Parece uma estufa tropical - você não consegue respirar”, disse ele, na entrevista por telefone. “Se um cinema tem 100 lugares, não se deve deixar entrar 300 pessoas. Se houver um incêndio, é uma tragédia”.

Marco Ferri, porta-voz de Uffizi, disse que o museu está em reforma desde 2006, mas em algumas alas ainda não foram implementadas melhorias para o controle da climatização. “Nos próximos 2 anos, tudo estará modernizado”, disse.

O Louvre, Uffizi, Vaticano, Rijksmuseum em Amsterdam e o Museu do Prado em Madri vendem entradas cronometrados, permitindo aos visitantes evitarem filas. Até os museus que não cobram por visitação a suas coleções permanentes, como o Museu Britânico e a Galeria Nacional de Londres, tem exposições especiais que cobram entrada. A exposição, sucesso de público,  Leonardo da Vinci: Pintor na Corte de Milão, na Galeria Nacional de Londres, teve vendas online de entradas que iam de US$25 até US$400.

Enquanto muitos museus fecham pelo menos num dia na semana, em 2012, o Prado passou a abrir nos sete dias da semana e estendeu seu horário de visitação até às 20 horas nos finais de semana. Isso, após passar pelo projeto de redesenho do arquiteto Rafael Moneo, em 2007, que melhorou a  circulação pelo museu, facilitando a visualização das obras primas de Velázquez e Goya.



Visitantes se acotovelam diante da "Mona Lisa" de Leonardo da Vinci , no Louvre. Guia Besana / The New York Times

Em todo museu, as pessoas acham meios de driblar as filas, seja indo ao Louvre às quartas-feiras ou sextas-feiras quando o museu fica aberto até às 21h45, encontrando menos trafego para entrar ou, até mesmo,  pagando por uma filiação anual que permite acesso prioritário.

No último outono, o Louvre fechou por um dia depois de seus guardas terem entrado em greve para protestavam contra as gangues de trombadinhas. Desde então, a segurança aumentou, e o número de furtos diminuiu em 75 %, disse um porta-voz do museu.  

Parado na longa fila ao lado da Pirâmide de Ieoh Ming Pei, no Louvre, Manu Srivastan, de 46 anos de idade, da cidade de Jabalpur, na Índia, disse que ele, sua esposa, seu pai e suas filhas estavam esperando na fila há 45 minutos, e ainda esperariam mais 15 minutos, mas não se importavam. “É uma experiência de aprendizado maravilhosa”, disse ele sobre o Louvre. “Sempre deixa você querendo mais.”  * THE NEW YORK TIMES / TRADUÇÃO DE LIZBETH BATISTA


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