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Paixão de alemão fez diferença no futebol paulista

Nobiling trouxe para São Paulo 'apetrechos' para o futebol, organizou jogos e a Liga Paulista

25 de julho de 2014 | 23h 42
Carlos Eduardo Entini

A organização e a determinação da seleção alemã dentro dos campos, e a simpatia fora deles, surpreendeu os brasileiros na Copa de 2014. Mas a determinação alemã é parte da história do futebol paulista. Tudo começa quando Hans Nobiling chega em São Paulo em 1897 com 'apetrechos', experiência e vontade de praticá-lo. "Amava muito os esportes", disse.

O caçula da família Nobiling, então com 20 anos, veio de Hamburgo para trabalhar com os irmãos Oskar e Theodor na empresa de importação e exportação Zerrenner Bulow. Além do desejo de construir a vida no Brasil, Nobiling tinha um objetivo claro: “fundar um clube que fosse uma espécie de irmão do clube de Hamburgo", do qual era sócio e jogar futebol "nesta terra tão nobre e hospitaleira". Tanta era a determinação que em setembro de 1897, quatro meses da sua chegada, Nobiling estava atrás de quem praticasse o esporte, "meu primeiro cuidado foi procurar jogadores de futebol" mas, "no princípio tudo era em vão, pois quem se interessava pelo futebol naquele tempo era raro", completa.


Relato de Hans Nobiling sobre a história e sua atuação do início do futebol em São Paulo. Reprodução: Instituto Martius-Staden

A história da atuação de Nobiling foi contada por ele no documento "Relatório do Veterano Esportista Hans Nobiling fundador do S.C. Germania sobre a origem do Futebol em S. Paulo". Escrito nos anos 1950, quando ele morava em Santa Catarina, foi destinado ao cronista esportivo Paulo Varzea, que na época escrevia um livro sobre o esporte.

O relato de sete páginas datilografas, e com correções à mão do autor, que pertence ao acervo do Instituto Martius-Standen é rico em detalhes sobre a prática do futebol na capital até 1900. E revela o esforço feito - e alcançado - para que o futebol deixasse de ser uma atividade de lazer dos ingleses.

Nobiling reconhece o papel de Miller como o introdutor do futebol na cidade, “a honra de ter trazido para S. Paulo, a primeira bola, para um jogo de futebol, cabe, ao meu ver, sem dúvida, ao sr. Charles Miller”. O papel de Hans Nobiling de organizador já era reconhecido pela imprensa paulista na década de 1950, "Nobiling agiu um tanto mais eficiente do que Miller. Levou o futebol para os meios bancários, para as companhias de estradas de ferro, para o meio da indústria e comércio e por isso foi um dos que de fato popularizaram o futebol no Brasil", publicou a Folha da Noite em 30 de abril de 1954. "A lista poderia ser longa [de incentivadores do futebol]. Maiores méritos, porém cabem a Charles Miller e Hans Nobiling dois verdadeiros esportistas e os verdadeiros introdutores do futebol no Brasil", afirmou a Folha da Manhã em 18 de maior de 1953.



Se Miller trouxe a bola, Nobiling trouxe a intenção de praticar o futebol, a vontade de organizar e todos os equipamentos necessários para o esporte, “como amava muito os esportes, trouxe da Alemanha propositadamente o que entende (sic) por apetrecho de esportes à saber: uma bola, enfiador, camisa, calção, meias, botinas e demais apetrechos para o jogo de futebol, um apito, e além disso, dois exemplares de estatutos, um do S.C. Germania de Hamburgo, e outro da liga Hamburgueza de Futebol”. Além disso, trouxe o conhecimento, porque já praticava o futebol no S.C. Germania de Hamburgo desde 1893, e atuou como capitão do segundo quadro de 1894 até 1897.

Procurando futebol. Em setembro 1897, Hans Nobiling começou a procurar onde se praticava o futebol e descobriu um esporte ignorado e jogado apenas pelos ingleses, que segundo ele "jogavam-se cada ano, pelo que pude apurar, duas partidas de futebol, entre os quadros do São Paulo Athletic Club, e se não me engano, do S. Paulo Railway Cricket Club". Mas essas duas partidas de futebol eram na realidade uma de 'futebol association' e outra de 'futebol rugby'. Em São Paulo esporte 'organizado' naquela época era o ciclismo que tinha sede no velódromo do Parque Antarctica, a pelota basca, e o turfe.

Só no ano seguinte Nobiling começa a montar seu time ao encontrar alguns esportistas alemães que já haviam praticaram futebol na terra natal e estavam dispostos a retomar o esporte. No começo foram oito os jogadores que treinavam todos os domingos e feriados das 7 às 9 horas da manhã no campo da Chácara Dulley, na época pertencente ao S. Paulo Athletico Clube. Hoje o terreno abriga o Colégio Santa Inês, na Rua Três Rios. De vez em quando, o entusiasmo era tão grande e o time treinava até às 22 horas, "quando a lua era cheia e iluminava bem aqueles descampados".

O primeiro 'contra'. Em meados de março de 1899, com o time completo, Hans Nobiling decide procurar adversários “a fim de que com elles nos medirmos”. O primeiro jogo do time do Hans Nobiling aconteceu em 25 de março de 1899 e o adversário foi a “turma dos alunos do Mackenzie”. Aqui ele deixa a sua primeira marca para a história do futebol paulista. Pela primeira vez o esporte é praticado fora da da colônia inglesa. Foram dois tempos de 30 minutos e o primeiro 'contra' da cidade de São Paulo acabou em empate sem gols.

O capitão Hans Nobiling entrou com seu time desfalcado, apenas nove jogadores compareceram. Mas mesmo assim foi um jogo equilibrado “os rapazes do Mackenzie superaram-se na firmeza de seus chuts, graças a um treino diário, porém desconheciam ainda que o jogo tinha sua tática”, comenta Nobiling.

Tática que havia adquirido em seus anos de capitão no time de Hamburgo. Em 21 de abril do mesmo ano acontece o jogo de volta, agora na chácara Dulley. A partida termina em 1 a 0 para o time de Nobling, o que para ele significou “o primeiro do E.C. Germania”, clube que viria fundar no ano 1899. Em 3 de maio e 14 de julho houve outros jogos contra a "turma” do Mackenzie em que ambos terminaram em 1 a 1. O convite para o quarto 'match', foi publicado no Estado no dia do jogo (ver imagem acima).

Charles Miller entra em campo. Com os primeiros jogos, Hans Nobiling estava confortável para desafiar a outra equipe: “deante dos nossos successos deliberamos ousadamente desafiar os inglezes do S.P.A.C. [São Paulo Athletic Club], desafio que foi logo aceito, sendo marcado o jogo no dia 29 de junho de 1899”. Aqui, outro feito que marca a história: em campo se enfrentam pela primeira vez Nobiling e Miller. E, pelo que se sabe, foi a primeira vez que Charles Miller atuou fora da colônia inglesa, pois o primeiro jogo registrado se deu entre Internacional e Atletic.

O resultado foi a primeira derrota de Nobiling, “uma derrota aliás, digo honrado, de 1a 0, da nossa parte contra os ingleses que tinham um quadro mais traquejado”, justifica o capitão. O jogo de volta, em 30 de julho, também não foi favorável ao time comandado pelo alemão. De novo, Nobiling justifica a superioridade do adversário, “não era um resultado debacle nem desonroso para nós, visto que o quadro inglez era composto por jogadores que tinham todos praticado o futebol na Inglaterra já no Colégio”.

Já não bastasse Nobiling ter tirado o futebol da colônia inglesa, marcado o primeiro "contra”, ter feito Charles Miller participar de um jogo fora da sua colônia, foi ele quem importou as bolas utilizadas nessas partidas, "as bolas usadas nesses jogos foram por mim mandadas vir da Alemanha, pois a conhecida casa Fuchs naquela época a unica (sic) de artigos de esporte, na cidade, (...) só começou importar bolas de futebol em 1899", explicou.

Liga Paulista de Foot-ball. Hans Nobiling participou ativamente também fora dos campos para organizar o futebol em São Paulo. Esteve na reunião que fundou o International Foot-ball Club, em 19 de agosto de 1899. O time recebeu esse nome por causa das várias nacionalidades que o formavam. Mas Nobiling saiu do grupo para cumprir o prometido e fundar, junto com outros patrícios, o Germânia, hoje o E. C. Pinheiros.

Em dezembro de 1901 ele também estava na reunião que criou a Liga Paulista de Foot-Ball. No encontro estavam entre outros Charles Miller e o "veterano esportista Antonio Casemiro da Costa, que, aliás, foi o patrono da ideia de sua fundação", explica Nobiling. O regulamento da nova associação se baseou no da Liga Hamburguesa, um dos apetrechos trazidos por ele da Alemanha. Ele também participou do primeiro jogo do primeiro campeonato paulista em 1902, quando o futebol definitivamente entrou para o calendário esportivo da cidade. O Germânia perdeu por 2 a 1 do Mackenzie no Parque Antártica, campo oficial do time alemão.

Ovelha negra. Apesar da importância de Hans Nobiling para o futebol paulista, pouco se sabe sobre sua a vida. O que se sabe está na pasta dedicada com poucos documentos, entre eles o "Depoimento..." e as fotos publicadas aqui, guardada no instituto Martius-Staden, e da sua trajetória no clube Pinheiros, preservada no Centro Pró-memória Hans Nobiling. Além de pequenas notas nos jornais. Nem para a família ele deixou muitos rastros. Para Antonio Carlos Nobiling Schnitzlein, sobrinho-neto de Hans, isso pode ser explicado pela opção feita pelo esporte. "Imagina alguém [de uma classe aristocrática] se dedicar ao futebol!", lembra Antônio o que dizia sua mãe sobre a fama que Hans tinha na família. De qualquer forma, Hans Nobiling é uma história para ser contada.

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