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Parque Augusta em fotos inéditas: escola, shows em lona de circo e estacionamento

Veja imagens do passado do novo espaço público de SP digitalizadas a partir dos negativos fotográficos

06 de novembro de 2021 | 0h 01
Carlos Eduardo Entini, Edmundo Leite e Liz Batista - Acervo Estadão

Local do Parque Augusta em momentos diferentes

Local do Parque Augusta em momentos diferentes

Das disciplinadas alunas de um colégio tradicional à efervescência do público dos shows de rock e outras estrelas da música sob uma lona de circo, passando pela frieza que só os estacionamentos de carro podem ter, o terreno onde finalmente é inaugurado o Parque Augusta já teve várias usos. A partir de 1974, quando foi demolido o palacete que desde 1906 abrigou o Colégio Des Oiseauxdestinado somente a meninas e moças de famílias abastadas, o amplo espaço entre as ruas Augusta, Caio Prado e Marquês de Paranaguá foi cobiçado e idealizado para diferentes empreendimentos.

A geração que foi jovem nos anos 80 tem lembranças musicais do local. Por dois anos, funcionou ali o Projeto SP, a lona de circo que foi um dos principais palcos paulistas do rock brasileiro que marcou a década. De Lulu Santos a Capital Inicial, cujos nomes estamparam cartazes no mesmo mural agora preservado, todos grupos e artistas de sucesso na época passaram por ali.

O show do Camisa de Vênus sob a lona do circo, em julho de 1986, foi descrito no Caderno 2 como "uma performance demolidora". Os Titãs comemoraram a marca de 100 mil cópias vendidas do disco Cabeça Dinossauro com duas apresentações no local.

Mas nem só de rock viveu o Projeto SP, que depois se mudaria, não mais como circo, para um espaço na Barra Funda. A lona do Projeto SP era eclética e artistas de todas as vertentes, nacionais e estrangeiros, se apresentaram no local, como Milton Nascimento e o saxofonista Wayne Shorter, que posaram juntos para fotos na frente do circo. Eventos como um leilão de cavalos também foram realizados por lá.

Milton Nascimento e o saxofonista americano Wayne Shorter  se abraçam em frente ao cartaz da sua apresentação no Projeto SP, 23/4/1986.

Milton Nascimento e o saxofonista americano Wayne Shorter  se abraçam em frente ao cartaz da sua apresentação no Projeto SP, 23/4/1986.

O destino do terreno com 24 mil metros quadrados no centro de São Paulo teve idas e vindas desde a demolição do colégio. Em 1970 foi declarado de utilidade pública para ser transformado em parque. Logo em seguida a Câmara revogou o decreto e o devolveu aos proprietários que pretendiam construir um hotel com 1.400 apartamentos. Nenhuma árvore seria derrubada, garantiram na época os responsáveis pelo projeto do hotel.

Além de hotel, já se pensou em erguer no terreno um supermercado e um Museu da Música Popular Brasileira. Enquanto não se decidia o destino, o Projeto SP ficou ali por dois anos, entre 1985 e 1987. Apesar do clima festivo dos shows, a permanência da lona por ali não foi tranquila, com vizinhos reclamando do barulho e a prefeitura interditando o local algumas vezes alegando problemas de segurança, como aconteceu no cancelamento de um show de Alceu Valença.

Fachada do Colégio Des Oiseaux em 1966. Alunas observam o prédio, adquirido em 1907 pelas freiras belgas da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho para montar a escola.nto Agostinho para montar a escola

Fachada do Colégio Des Oiseaux em 1966. Alunas observam o prédio, adquirido em 1907 pelas freiras belgas da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho para montar a escola.nto Agostinho para montar a escola

Primeiras construções. A primeira construção no local que se tem registro é a residencia familiar Vila Uchoa, erguida em 1902 pelo arquiteto francês Victor Dubugras. Em 19o6, o terreno foi vendido para a congregação de Nossa Senhora das Cônegas de Santo Agostinho. No ano seguinte a congregação abriu o Colégio Des Oiseaux. O tradicional colégio feminino francês era para famílias abastadas da cidade. Lá estudaram Ruth Cardoso e Marta Suplicy. Em 1918, durante a epidemia da gripe espanhola, o colégio serviu de hospital para crianças.

Em 1970, as freiras decidiram deixar o centro de São Paulo e venderam uma parte do terreno para adiantar as obras da nova sede da escola. O prédio de inspiração arte noveau foi demolido em 1974. Nos fundos do terreno, na Marquês de Paranaguá, também funcionou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, também das Cônegas.

O plano era a construção de um prédio de apartamentos depois que o Sedes Sapientiae fosse transferido para a Universidade Católica (PUC), em Perdizes. E o prédio da escola, na rua Caio Prado, deveria ser alugado para a Prefeitura, que pretendia transferir alguns de seus departamentos para lá. Um deles seria o de Educação que funcionava precariamente no subsolo do prédio da Câmara.

Fachada demolida do Colégio Des Oiaseux em 16/12/1974.

Fachada demolida do Colégio Des Oiaseux em 16/12/1974.

Jardim público. Em 1970 houve a proposta de demolição do colégio e construção de um jardim público. Nessa ocasião, a Prefeitura declarou de utilidade pública toda a área verde existente ao redor do colégio. A proprietária do imóvel queria vendê-lo para uma construtora interessada na construção de prédios de apartamentos na área. Ela conseguiu reverter a situação jurídica do terreno na Câmara Municipal, conforme publicou o Estado em dezembro de 1973.

Em 1974, com o crescimento dos prédios nas proximidades, o Des Oiseaux passou a ser um contraste urbano na área da Augusta e Consolação e as especulações das imobiliárias para a venda do terreno não paravam de crescer. Os moradores do bairro, na década de 1970, conheciam o velho casarão como o “prédio do Cursinho Universitário” porque lá abrigou o curso pré-vestibular Equipe.

Muitos projetos foram apresentados e o embate entre a Prefeitura e os moradores é antigo. Havia um projeto, que deveria ser encaminhado em fevereiro de 1975 à Prefeitura pela Sisal Engenharia, para a construção de um hotel com especificações técnicas para preservar a área verde existente na área. Entre os argumentos usados pela construtora, estava aquele que dizia que a área verde existente chegava a ser uma atração turística capaz de atrair mais hóspedes, o que justificaria grandes investimentos.

No terreno do atual Parque Augusta foi previsto a construção de um hotel com 1.400 apartamentos. Um estacionamento, como mostra a foto, funcionou ali na década de 1970.

No terreno do atual Parque Augusta foi previsto a construção de um hotel com 1.400 apartamentos. Um estacionamento, como mostra a foto, funcionou ali na década de 1970.

Em 1977, a Teijin, outra construtora, anunciou que havia adquirido o terreno para construir o maior conjunto hoteleiro turístico do hemisfério sul, com a área verde preservada. Porém, não saiu do papel. O Conselho Municipal do Patrimônio Histórico (Conpresp) rejeitou em 2006 o pedido da Acisa para construção de um hipermercado na área.

O terreno foi adquirido em 1996 pelo empresário Armando Conde, da Acisa Incorporadora. Em 2008, na gestão de Gilberto Kassab, a Prefeitura estudou a possibilidade de implantar, dentro do espaço verde, o Museu da Música Popular Brasileira, proposta do urbanista Lineu Passeri, da Universidade de São Paulo (USP). Mais uma vez o projeto não vingou.

Mata Atlântica. A reivindicação antiga dos moradores é para que a Prefeitura transforme a área no Parque Augusta . O terreno é considerado a última área verde permeável do centro da cidade, ou seja, essa é uma área revestida com vegetação (grama, arbustos ou árvores) uma bosque na cidade, e conta com árvores centenárias, inclusive espécies remanescentes da mata atlântica ,como palmeiras e jacarandá.

O terreno do atual Parque Augusta já serviu como estacionamento, como mostra fotografia do local em  9/5/1977.

O terreno do atual Parque Augusta já serviu como estacionamento, como mostra fotografia do local em  9/5/1977.

Parque. O destino do terreno em parque começa a ser selado em 2002, quando o novo Plano Diretor da cidade previu a implantação do espaço público. Em 2004 o terreno foi tombado pelo Conpresp. Em 2003 a prefeitura transforma em lei a criação do Parque Augusta.

Mesmo assim, as construtoras donas do terreno resistiam, enquanto uma mobilização de moradores do entorno pressionava pela efetivação do parque. O que faltava era um acordo entre a prefeitura e os proprietários da área, as construtora Setin e Cyrela. O acordo saiu  quando a prefeitura e as construtoras tiraram todas as pendências.

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