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Primeiro curso de Sociologia do País completa 80 anos

Escola de Sociologia e Política, nascida para criar nova elite, também pretendia formar jornalistas

27 de maio de 2013 | 15h 32
Carlos Eduardo Entini

A Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, que completa 80 anos, foi primeira escola a formar sociólogos e cientistas políticos no Brasil. Depois, a partir dela, surgiu a primeira faculdade de Biblioteconomia do País. Mas poderia ter sido, também, pioneira no ensino de Jornalismo.

Foi assim que ela se apresentou, em março de 1933, dois meses antes de ser fundada. Em nota publicada no Estado (à esquerda), a Escola que era destinada a “formar um centro de cultura especialisada para as pessoas que se interessarem pelos grandes problemas da sociedade”, entre elas jornalistas, pois tratava-se também “de uma escola de jornalismo”. O primeiro curso superior de jornalismo, que surgiria na década seguinte, seria o na Cásper Líbero, em 1947.

O curso na Sociologia e Política seria iniciado no segundo semestre e teriam as cadeiras de história do jornalismo e técnica jornalística. O jornalista ingressaria no curso apresentando atestado que comprovasse quatro anos de experiência na profissão.

O curso de Jornalismo não foi para frente, ao contrário do desejo de construir uma nova elite intelectual. A Escola Livre de Sociologia e Política, assim como a USP, foi fundada logo após a Revolução de 1932, quando São Paulo estava “moralmente ferido pelos dissabores dos ultimos annos”, conforme está impresso no manifesto de fundação publicado no Estado em abril de 1933 (ver abaixo).

Depois da derrota do Movimento Constitucionalista, os intelectuais paulistas perceberam falta de uma “elite numerosa e organisada, instruída sob methodos scientifícos, ao par das instituições e conquistas do mundo civilisado, capaz de comprehender antes de agir o meio social em que vivemos”.

O Estado de S. Paulo - 16/4/1933

O manifesto de fundação, assinado por diversos intelectuais paulistas, inclusive Mário de Andrade

Segundo Sergio Milliet, um dos fundadores da Escola, o ensino superior da época era “exclusivamente formal” e “produzia anualmente centenas de bacharéis inúteis e nenhum elemento de verdadeira cultura”. A importância da fundação da Escola foi a renovação do ambiente intelectual, “nosso ensino superior desumanizava o indivíduo, afastava da vida e enchia-lhe a cabeça de retórica barata”.

No sistema de ensino brasileiro, antes da criação da Escola, a sociologia era uma das cadeiras do conhecimento humano. Na Faculdade de Ciências e Letras da USP, a matéria fazia parte da grade curricular do departamento de Ciências Sociais e Políticas.

A Escola de Sociologia e Política de São Paulo adotou uma metodologia da sociologia americana, sobretudo a de Chicago, onde a pesquisa aplicada era predominante. De lá vieram diversos professores, como Donald Pierson. Enquanto isso a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras recebia a influência das ciências sociais dos franceses.

Menos de dois anos de existência, o projeto teve uma mudança de rumo. Em fevereiro de 1935, a Escola criada para ser uma fundação autônoma e viver com doações de empresários e dos cursos, recebe uma nova configuração jurídica. O decreto de Armando Salles, interventor federal, transforma a faculdade em utilidade pública o que permitiria a ela receber verba pública. Também ganhou o 'status' de “instituição complementar da USP”. Em 1946, a escola deixa de ser 'Livre'. Em outro decreto federal, ela é reconhecida como curso de graduação, e o MEC toma como base seu currículo para o ensino de sociologia no País. Em 1940 surgiu a graduação do curso de Biblioteconomia, criado e ministrado desde 1936 pela Biblioteca Municipal, atual Mário de Andrade.


A Escola foi a primeira a implantar uma graduação de biblioteconomia. Na foto, bibliotecárias em 1963. Acervo/Estadão

A primeira turma começou o curso em 18 de julho de 1933 e se formou em 1937. A Escola Livre de Sociologia e Política funcionou desde sua fundação, até 1947, no edifício da Escola de Comércio Álvares Penteado, no Largo São Francisco. Só teve sede própria, a atual na Rua General Jardim, em 1954.


Até a década de 1960, a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp) mantinha, além dos cursos de graduação, os de pós-graduação, o Instituto de Pesquisa Social, Insituto de Estudos Municipais, Instituto de Extensão Cultural e Cursos Supletivos e a editora Sociologia e Política, que publicava a revista “Sociologia”.

O Estado de S. Paulo - 28/5/1933

Com problemas de financiamento, a Fundação viveu em crise durante três décadas, de 1970  a 2000. Ameaças de fechamento do curso e intervenção federal, atraso no pagamento dos professores e greves apagaram o charme e relevância daquele casarão por onde passaram figuras como o Florestan Fernandes, Luiza Erundina, Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso. Hoje, para Waltercio Zanvettor, diretor da Fesp, a crise pertence ao passado. A Fundação, segundo ele, encontrou o equilíbrio financeiro realizando pesquisas e estudos para Estados, municípios e empresas privadas. Foi com o dinheiro desses convênvios que foi possível construir um novo prédio ao lado do casarão, para abrigar todos os cursos da fundação. O prédio, inaugurado em 2012, custou R$ 11 milhões.


Revista 'Sociologia' com artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

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