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São Paulo das porteiras

Apesar do charme, passagens de nível foram transtorno para o trânsito e local de acidentes

06 de novembro de 2015 | 11h 59
Carlos Eduardo Entini

porteira do bras, trem
Menino na porteira do Brás, em 1957. Acervo/Estadão 

Antes dos viadutos, passarelas e outras passagens sobre e sob os trilhos do trem, São Paulo tinha uma curiosa divisão geográfica: antes da porteira e depois da porteira. As porteiras da estrada de ferro marcavam uma divisão entre a área urbana da cidade e os bairros populares.

Logo quando começaram a ser instaladas, em meados do século 19, as passagens de nível eram conhecidas como 'Porteiras da Ingleza', por cruzarem o trajeto da companhia inglesa São Paulo Railway. 
Segundo a reportagem do Estado de 26 de outubro de 1978, havia naquele ano 90 passagens de nível no trajeto que compreendia a capital e as cidades da região metropolitana de São Paulo. Ainda segundo a reportagem, eram 120 km de trilhos cortando a região. 



Visto de hoje, as porteiras lembram uma cidade bucólica, onde tudo era tranquilo e a vida corria sem percalços. Mas a nostalgia sempre engana. Elas eram um grande problema para a cidade. Eram locais ondem ocorreram diversas mortes e acidentes. Além disso, o tráfego da cidade era frequentemente interrompido pela passagem e manobra dos trens.

O Estado de S. Paulo - 20/4/1929
porteira do brás, trem

Na mais famosa e movimentada porteira da cidade, a do Brás inaugurada em 1865, o problema existia desde o começo do século 20. Na edição de 20 de abril de 1929, o jornal lembrou uma seção da Câmara dos vereadores, de dois anos antes, onde foi decidido a construção de passagens de níveis sobre a Avenida Rangel Pestana. Mas até aquele momento nada havia avançado.


No texto foi lembrado o discurso de Goffredo Telles. O vereador, em tom poético, descreveu com precisão o atraso acarretado pelo frequente fechamento das porteiras ao trânsito: “os motorneiros dormem abraçados á manivella de contato, os automoveis se comprimem, businando, por consolo; os passageiros perdem o trem, vendo caminhar, raivosos e imponentes, no fundo dos seus carros immoveis, o relogio dos taxis inexoraveis; os caminhões trepidantes gastam gazolina sem sahir do logar; os carroceiros, parados no alto de suas boléas, comem o soldo do industrial e do commerciante; a vida se atrasa, o dinheiros se escoa”.

O problema da passagem de nível no Brás só foi resolvido em 1968 quando foi inaugurado o viaduto Alberto Marinho. Mesmo com o viaduto, a porteira do Brás funcionou até 1977. Leia mais em “Um novo viaduto para acabar com o trânsito”.


Tag: trem

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