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São Paulo e as inundações em 1931: Veneza falsificada

Suplemento em Rotogravura do jornal destacou contraste dos estragos entre ricos e pobres

11 de fevereiro de 2020 | 17h 09
Cristal da Rocha - Acervo Estadão

"Cidade de planalto, onde apontam os primeiros arranhaceus cuja grande arteria de casas de luxo corre ao longo de um espigão, S. Paulo prospero não conhece os horrores das inundações periódicas a que estão sujeitos os bairros baixos e pobres, muitos delles espalhados pelas varzeas do tortuoso Tieté. De vez em quando nos traz o verão, como agora, uma série de aguaceiros que alagam as baixadas da cidade, dando-nos amostra de uma Veneza falsificada, onde muitas ruas quasi que são rios e por toda a parte se espalham largas toalhas de água.

O trecho acima transcrito com a grafia original poderia descrever perfeitamente o que acontece em São Paulo atualmente depois das chuvas fortes. Mas foi publicado no Suplemento em Rotogravura do Estadão em janeiro de 1931, quando a cidade enfrentou uma de suas recorrentes enchentes nas várzeas do Rio Tietê.

Rotogravura em 1931

Rotogravura em 1931

Além de mostrar o contraste dos estragos nas partes altas e baixas da cidade, o texto fala sobre o projeto de retificação do rio Tietê como uma possível solução para o problema. Mas também questiona a eficácia da ideia: "porém, não deixam de caber alguma duvida a respeito, pois que cidades que rios atravessas e que foram desde muito disciplinados em rectas e caes, ainda estão sujeitas a crescente das aguas, como Paris, que todo brasileiro conhece..." 

A situação não falta pittoresco, para os que sabem apenas ver. Mas para os que sabem sentir, tambem, ella é simplesmente dolorosa. Significa centenas de famílias ilhadas nas suas próprias casas ou obrigadas a fugir dellas, representa os transportes interrompidos. E isto com tal extensão e força que se organisam, pelas enchentes, verdadeiros socorros publicos, nos quaes os bombeiros augmentam, com brilho, sua folha de serviços a collectividade.

A solução todos apontam dever estar na famosa rectificação do Tieté, sem duvida muito interessante e util, como grande melhoramento publico. De facto, porém, não deixam de caber alguma duvida a respeito, pois que cidades que rios atravessas e que foram desde muito disciplinados em rectas e caes, ainda estão sujeitas a crescente das aguas, como Paris, que todo brasileiro conhece...

As ultimas inundações, que logo vieram, cresceram e passaram, deram-nos ainda algum aspecto novo, como estes dois em que vemos um serviço de transportes aquaticos improvisados em Villa Maria e um canto da Ponte Grande onde o Tieté subiu cerca de tres metros."

> Rio Tietê é destino de esgoto há mais de um século

Acervo Estadão

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