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Zerbini

Euryclídes de Jesus Zerbini (Guaratinguetá, 10/05/1912 - São Paulo, 23/10/1993).

Filho de Ernestina e Eugênio Zerbini, Euryclides de Jesus Zerbini era o caçula de quatro irmãos também batizados com nomes de origem grega, Eurídice, Eurípides e Euryale. Zerbini terminou o curso científico no colegio Diocesano de Santa Maria, em Campinas,  sem descobrir qual profissão seguir. Foi o incentivo de seu pai que o levou a escolher medicina. Em 1930, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Mas, no início do curso, quse desistiu por causa de uma aula de cirurgia. Em 1932, se apresentou como soldado e foi lutar na Revolução Constitucionalista. Assistindo ao trabalho de atendimento aos feridos, acostumou-se aos sangramentos das dilacerações e tomou gosto pela cirurgia. No mesmo ano conheceu o Dr. Alípio Corrêa Netto, professor de Clínica Cirúrgica na Universidade de São Paulo, que seria seu mentor profissional.

Em 1935, aos 23 anos, formou-se médico. Em 1939, foi nomeado primeiro assistente do Prof. Dr. Corrêa Netto na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Dois anos depois, aos 29 anos de idade, foi aprovado no Concurso de Livre Docente, com a tese sobre tumores cerebrais supratentoriais. Em 1942, realizou sua primeira cirurgia cardíaca. Num caso de emergência na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o cirurgião retirou um estilhaço de ferro do coração de um garoto de 7 anos de idade. Sem hesitar, Dr. Zerbini abriu o pericárdio do menino, retirou o fragmento do coração e ligou a artéria descendente anterior, que se encontrava lesada, salvando a sua vida. Na época, esse tipo de intervenção era rara na medicina, algo só realizado em casos extremos. Os detalhes do procedimento foram publicados no Journal of Cardiac Surgery em 1943.

Em 1944, Zerbini conseguiu uma bolsa de estudos no Estados Unidos, foi para hospital Barnes de Saint Louis e hospital geral de Massachusetts. No exterior se especializou em cirurgia torácica. De volta ao Brasil, casa-se em 1949 com a, também médica, Dra. Dirce Costa. No início da década de 1950, Zerbini começa a realizar os primeiros procedimentos intracardíacos para tratar cardiopatias congênitas simples. Em 1957 é contemplado com uma bolsa da Fundação Rockefeller para estudar circulação extracorpórea e retorna aos Estados Unidos. A aplicação dessa técnica, possível graças aos avanços tecnológicos da medicina americana, desviava o sangue do coração do doente para que o cirurgião pudesse trabalhar com maior tranquilidade e tempo nos reparos ao órgão vital. Zerbini trouxe a técnica para o Brasil e passou a realizar operações com circulação extracorpórea. Foi também nos Estados Unidos, que ele conheceu o cirurgião sul-africano Dr. Christian Barnard. Foi quem Barnard realizou o primeiro transplante de coração do mundo, em 3 de dezembro de 1967.

Pouco mais de cinco meses após a cirurgia de Barnard, em 26 de maio de 1968, Zerbini e sua equipe realizaram o primeiro transplante cardíaco do Brasil. No Centro Cirúrgico do Hospital das Clínicas, em São Paulo, o coração de Luis Ferreira de Barros, morto por atropelamento, foi transplantado com sucesso para o peito do lavrador João Ferreira de Cunha, conhecido como João Boiadeiro. Diferente do procedimento por Barnard, Zerbini optou deixar o coração doado em temperatura normal, irrigado pela máquina de perfusão. João viveu apenas 28 dias com seu novo coração. O feito foi celebrado e amplamente noticiado, trazendo notoriedade ao cirurgião, que foi condecorado com a medalha da Ordem do Mérito Médico, no grau de grã-cruz. Zerbini realizou mais dois transplantes no ano seguinte. Um dos transplantados, o empresário Ugo Orlandi, viveu 15 meses após a cirurgia. Em 1969, o médico se tornou Professor Titular de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da USP, cargo que exerceu até 1982.

Na década de 1970, os altos índices de casos de rejeição dos pacientes submetidos a transplantes cardíacos levam o Zerbini e sua equipe a adotarem uma postura criteriosa na sua realização. Apesar de defender o procedimento para casos críticos, o cirurgião só voltou a realizar um transplante de coração em 1985, quando a medicina pós-operatória da área havia obtido progressos consideráveis e as drogas anti-rejeição estavam mais aprimoradas. O intervalo nos transplantes não representou pausa na carreira. Em fevereiro de 1975, Zerbini passou a dirigir o recém-inaugurado Instituto do Coração do Hospital das Clínicas em São Paulo, o Incor. Sob sua administração o instituto tornou-se uma referência em medicina, clínica e cirúrgica, do coração no mundo. Em 1978, a Fundação Zerbini é criada para dar suporte técnico ao Incor.

Em 58 anos de carreira, foi responsável por 40 mil cirurgias cardíacas, pessoalmente ou através de sua equipe, participou de 314 congressos médicos e recebeu 125 títulos honoríficos e inúmeras homenagens de governos de todo o mundo. Zerbini exerceu a medicina, até poucos meses antes de morrer. Faleceu vítima de câncer, aos 81 anos, no Incor, hospital que criou e dirigiu.

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