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Ideologia de Cazuza em fotos inéditas no Aeroanta

Há 30 anos, cantor e compositor lançava disco com shows na casa noturna da moda em SP

12 de dezembro de 2018 | 9h 23
Cristal da Rocha - Acervo Estadão

Cazuza e Kiko Zambianchi nos bastidores do show de lançamento do disco 'Ideologia', em 1988.

Cazuza e Kiko Zambianchi nos bastidores do show de lançamento do disco 'Ideologia', em 1988.

Disparo contra o sol, Sou forte, sou por acaso, Minha metralhadora cheia de mágoas, Eu sou um cara

Se os primeiros versos de 'O Tempo Não Pára' hoje estão na boca do povo, 30 anos atrás a música de Cazuza ainda era uma novidade fresquinha. A parceria com Arnaldo Brandão fazia parte do aguardado 'Ideologia', terceiro disco solo do cantor que naquele 1988 escolheu lançar o novo trabalho numa pequena mas badalada casa noturna de São Paulo, o Aeroanta. Os repórteres e fotógrafos do Estadão estiveram lá e registraram lances e imagens, a maior parte delas inéditas, agora aqui publicadas pela primeira vez. Já com a aparência um pouco fragilizada pela aids, Cazuza recebeu amigos, parentes, músicos e imprensa para mostrar que estava vivaço.

Conhecido até então pelos shows repletos de excentricidades, a apresentação de 'Ideologia' seria mais contida em movimentos do cantor. Esta escolha que envolvia menor atitude com o corpo e mais com a voz era uma decisão baseada na saúde do músico – ele havia passado pela sua primeira internação nos Estados Unidos. Já estava mais magro e com os cabelos lisos e ralos, mas seguia desviando do assunto - até mesmo mentindo - para a imprensa.

No Jornal da Tarde, a repórter Isa Camabrá esteve com o músico e com Ney Matogrosso, diretor artístico do show, e falaram sobre o repertório, estilo e estrutura do show:

“A voz está mais clara, alcançando as notas altas com mais facilidade. Os gestos estão mais contidos. Nada lembra os shows eletrizantes, com muitos decibéis e Cazuza jogando-se no chão. É um espetáculo que ele define como intimista, com o que o diretor, Ney Matogrosso, não concorda: 'é reflexivo, mas não intimista, porque tem tom de rock'. Ao lado do rock, blues – como 'Todo amor que houver nessa vida', que Cazuza interpreta ao som de uma gaita e de teclados, e 'Codinome, beija-flor', marcado por um sax. As 13 músicas do repertório cumprem o objetivo do diretor: são um depoimento claro e emocionado do artista, uma síntese do seu pensamento.”

Veja a galeria completa em outra página acessando o link

Por perto durante toda vida artística de Cazuza, mais que um amor, Ney tornou-se um grande amigo – desde quando se conheceram, ajudou a estourar o Barão Vermelho nas rádios gravando 'Pro Dia Nascer Feliz', até seus ultimos momentos no palco e na vida - zelou por ele nesta turnê e na seguinte, do disco ao vivo 'O Tempo Não Pára' dirigindo novamente a iluminação, de forma que o músico, a esta altura já mais debilitado fisicamente, economizava expressões físicas e usava as palavras como um personagem de seu tempo, que observa ao redor e retorna com arte e música.

Tema tabu à época, a doença era tratada de maneira velada. “Cazuza está vivo. E como. Mais magro, porém bronzeado. Voltou a frequentar a praia e a noite. Mas sem excessos. Não é exatamente 'A volta do boêmio' como foi noticiado: 'Estou novamente em um ritmo normal. Fumo sim, mas de maneira comedida. Bebo sim, mas moderadamente. Não passo noites sem dormir, mas também não estou mais só dentro de casa, como até pouco tempo atrás. Saio, mas me cuido. Não estou correndo atrás da morte, mas da vida.'

Apesar da boataria a respeito de sua saúde - ele só admitiria publicamente a doença no ano seguinte - Cazuza apresentou-se durante cinco noites no Aeroanta, de quarta a domingo em junho 1988. O jornal cobriu a estréia e a sequência de apresentações. O crítico musical Lauro Lisboa Garcia detonou a "atuação execrável" da banda que acompanhava o artista e falou sobre a casa com sua capacidade de público no limite:  "a superlotação da casa só permitia mover os músculos da face."

Mas não deixou de notar também as razões pelas quais as canções e o nome de Cazuza perdurariam com a passagem do tempo. "A música dos anos 80 deve a ele a sua cara e coragem da honestidade. Esqueça a carnavalização besta que fazem de seus tesouros poético-musicais em trilha de novela. O mais importante é que seu feeling bate mais em cima. Principalmente e quase só por isso, não perca este show.'

Crítica de Lauro Lisboa Garcia sobre o show Ideologia de Cazuza no Aeroanta em 1988 

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